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Entre restos e invenções: Claudio Cretti apresenta ‘Bijoux Paçoca’ no V744atelier a partir de 29 de maio

Primeira exposição do artista em Porto Alegre reúne esculturas e colagens que atravessam memória, cultura material e os limites entre o erudito e o popular

Entre restos e invenções: Claudio Cretti apresenta ‘Bijoux Paçoca’ no V744atelier a partir de 29 de maio
Vista da exposição individual, intitulada bijoux paçoca no espaço Orlando, São Paulo - Brasil 2025. Crédito: Carlos Monaretta

Pela primeira vez em Porto Alegre, o artista plástico paraense (radicado em São Paulo), Claudio Cretti, apresenta a exposição “Bijoux Paçoca” no V744atelier, com abertura no dia 29 de maio próximo. O convite, vindo de um espaço independente gerido pela artista visual Vilma Sonaglio, foi decisivo para sua participação. ”Eu aceitei prontamente. Tenho muito interesse em projetos independentes, geridos por artistas”, confessa. A mostra reúne um conjunto de trabalhos em pequena escala, pensados em relação direta com o espaço, sem perder a densidade de uma pesquisa que o artista desenvolve há mais de uma década. A exposição conta com texto crítico da pesquisadora Fernanda Albuquerque.

Claudio Cretti, Passarinho, 2024, 21 x 7 x 25 cm, Objetos de metal, madeira, osso e barbante. Crédito: Everton Balardin

Escultura como colagem de mundos

A exposição parte de uma série iniciada por volta de 2012, composta por esculturas e objetos construídos a partir da combinação de materiais diversos: madeira, mármore, feltro e, sobretudo, fragmentos coletados ao longo de anos. "É quase como uma colagem de múltiplos materiais, muitos deles colecionados por mim”, detalha. Esses trabalhos articulam diferentes regimes de valor: o que pertence ao campo da arte e o que vem do cotidiano, o que é projetado e o que é encontrado, o que é considerado nobre e o que é descartado. Nesse trânsito, Cretti constrói um vocabulário próprio, em que a escultura se aproxima da bricolagem e da cultura material brasileira. “Interessa-me essa relação entre alta cultura, baixa cultura, cultura popular e o sistema da arte”, afirma.

O título “Bijoux Paçoca” explicita essa operação: uma justaposição de referências que mistura o sofisticado e o popular, o estrangeiro e o local. “Uma mistura mesmo… com objetos que dizem muito da cultura brasileira”, explica.

Embora suas obras sugiram associações livres, o artista afirma que o processo é atravessado por decisões rigorosas. “Não existe muito acaso no meu trabalho, são escolhas”. Ainda assim, o percurso não é totalmente controlável: desdobramentos inesperados surgem durante a feitura e abrem novas possibilidades. “Às vezes, algo sai do lugar e indica outro caminho”, pontua.

As esculturas, feitas por acúmulo e reorganização de elementos, produzem estranhamento. Reconhecíveis e, ao mesmo tempo, indecifráveis, elas convidam a um olhar mais demorado. “Elas não se entregam de pronto… exigem um olhar mais atento. Entre fragmentos de objetos, sugerem relações com o corpo, com animais, com formas orgânicas, sem nunca se fixarem em um único sentido”.

Memória que não é só pessoal

A dimensão da memória atravessa a exposição, mas não como autobiografia. Os objetos utilizados não pertencem, em sua maioria, à história íntima do artista, e sim a um repertório mais amplo, quase coletivo. “É uma memória do mundo, não só minha”, admite.

Desde jovem, Cretti coleciona coisas: garrafas, caixas, pedaços de madeira, objetos encontrados em feiras ou trazidos de viagens. “Sempre olhei para os objetos como se eles tivessem alma”. Durante anos, esse acervo permaneceu guardado, até que, ao revisitá-lo, o artista encontrou ali o núcleo de sua poética: “quando abri aquelas caixas, percebi que precisava usar aquilo no meu trabalho”, relata.

Esse gesto marca uma virada: do projeto executado por terceiros à manualidade direta, mais próxima do fazer artesanal. “Comecei a entender que meu lugar estava nessa execução manual, quase de artesão”, reflete.

Claudio Cretti, Elroy, 2025, 58x58x28,5 cm , madeira, haste de guarda-chuva, linha encerada, miçangas de vidro, tinta acrílica, guache e esferas de metal. Crédito Everton Balardin

Diálogos e deslocamentos

Além das esculturas, a mostra apresenta duas colagens realizadas no final dos anos 1990. Produzidas antes do desenvolvimento dessa série atual, elas aparecem agora como um antecedente significativo, revelando continuidades no modo de pensar a imagem e a matéria. “Percebi que havia uma relação entre aquelas colagens e o que faço hoje”, comenta.

A exposição também ocupa integralmente o espaço do V744atelier, distribuindo trabalhos entre sala principal, sala menor e corredor, com peças de parede e elementos suspensos, criando um percurso que articula escala, proximidade e deslocamento.

Com uma trajetória de mais de 40 anos, Claudio Cretti constrói uma obra que atravessa a tradição da escultura moderna e as questões contemporâneas da arte. Sua formação, marcada por artistas que transitam entre escultura e desenho, encontra aqui uma inflexão singular: uma prática que incorpora o acaso controlado, o acúmulo, o gesto manual e a potência simbólica dos objetos ordinários.

Sobre Claudio Cretti

Claudio Cretti (Belém, Brasil, 1964) é um artista visual com mais de quatro décadas de atuação no campo da arte contemporânea brasileira, desenvolvendo uma produção que transita entre escultura, desenho, colagem e performance. Nascido no Pará e criado no interior de São Paulo, construiu uma trajetória sólida a partir dos anos 1980, com presença contínua em exposições individuais e coletivas em importantes instituições e galerias do Brasil. Entre seus projetos individuais mais recentes, destacam-se Híbridos Sincréticos (2024), na Pasto Galeria, em Buenos Aires, e Evocativos (2023), no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, além de mostras realizadas na Galeria Marília Razuk, espaço com o qual mantém relação histórica. Ao longo de sua carreira, realizou exposições em instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Paço das Artes e o SESC, consolidando uma pesquisa centrada nas relações entre forma, materialidade e cultura.

Sua produção também alcança circulação internacional, com participações em feiras e exposições no Exterior, como a ARCO Madrid, na Espanha, além de individuais na Argentina. No Brasil, integrou importantes coletivas e mostras de panorama, como Nova Escultura Brasileira (Caixa Cultural, Rio de Janeiro) e projetos realizados no Pavilhão da Bienal de São Paulo e na mostra Paralela. Suas obras integram acervos públicos de relevância, como o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Paralelamente à produção artística, desenvolve atuação curatorial. Atualmente é diretor artístico da programação da Casa de Cultura do Parque, em São Paulo, desde 2019, o que amplia sua inserção crítica no sistema da arte contemporânea.

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