Um dos monstros literários que mais assombram as telas, Frankenstein está novamente em cena. Depois de entrar em cartaz em algumas cidades brasileiras ⎯ Porto Alegre ficou de fora do circuito ⎯, o Prometeu moderno nascido originalmente nas páginas escritas por Mary Shelley chega à plataforma Netflix na versão dirigida por Guillermo del Toro, que destaca os distintos humores românticos de criador e criatura da célebre novela gótica.
Frankenstein (2025) acompanha a paixão do brilhante e egocêntrico cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac) em sua obsessão em vencer a morte, originada pela perda da mãe e por traumas de infância. Financiado pelo cínico empresário Harlander (Christoph Waltz), o pesquisador consegue dar vida a um homem criado a partir da junção de membros de diferentes cadáveres.

Descartada por seu criador por conta de sua monstruosidade, a criatura (Jacob Elordi) parece ser compreendida apenas por Elizabeth (Mia Goth), a bela cunhada de Victor. À medida que vai descobrindo a própria natureza e interagindo com as pessoas, o morto-vivo vai se revoltando contra a crueldade do mundo ao redor e, especialmente, a desumanidade do cientista que o criou.
Da mesma maneira que outros filmes fantásticos do diretor, como O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água (2017), Frankenstein tem uma direção de arte requintada e pesadamente estilizada ⎯ neste caso, evocando o imaginário ultragótico de meados do século 19. Esse artificialismo é tão pesado que chega a atravancar o desenvolvimento das boas ideias do roteiro, que colocam em pauta as preocupações literárias do romantismo e a figura mesmo de Mary Shelley, ainda que não explicitamente.

A trama é ambientada algumas décadas depois do romance original, publicado em 1818, o que permite no filme que a criatura aprenda a ler estudando os escritos de Percy Shelley, marido da autora de Frankenstein. Na versão de Guillermo del Toro, Elizabeth surge como uma espécie de alter ego da escritora inglesa, cuja educação liberal transformou-a em uma mulher emancipada e uma feminista à frente de seu tempo.
Como o monstro trágico com quem se identifica, a personagem da nova "rainha do grito" Mia Goth sente-se deslocada do convívio social, ditado por valores patriarcais e desprovido de empatia e fraternidade. Essa percepção de inadequação tipicamente romântica compartilhada por Elizabeth e a criatura tem seu contraponto em outra expressão característica do movimento artístico e de muitos de seus expoentes masculinos: a valorização da própria genialidade e a autocomiseração vaidosa que transforma o sofrimento íntimo em fascínio ⎯ traço comum tanto ao ficcional Victor quanto ao poeta Lord Byron, amigo do casal Percy e Mary Shelley, cujo verso “E assim o coração há de se partir, mas, partido, ainda viverá” é citado no final do filme.

Frankenstein: * * * *
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