Uma montanha de lixo, escadas, referências à pop art e imagens do rosto da protagonista, interpretada por Danielle Winits, compõem o cenário de Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente, peça dirigida por Gerald Thomas. O monólogo integra a programação do Porto Alegre em Cena, nos dias 15 e 16 de setembro, às 20h, no Salão de Atos da PUCRS – últimos ingressos aqui.

Gerald atualiza um texto escrito pela premiada dramaturga norte-americana Jane Wagner, encenado pela primeira vez em 1985, com atuação solo de Lily Tomlin, que interpretava 17 personagens. Ele foi convidado por Winits e pelos produtores do espetáculo a trabalhar no texto original, com carta branca para conduzir a montagem por outros caminhos.
“Eu geralmente não faço peça que não é minha. Nem sabia quem era a Danielle Winits. Então fiquei meio assustado. A peça não era minha, mas eu conhecia a autora, Jane Wagner”, conta o diretor, por videochamada, desde Nova York, onde vive, à Matinal. “Nosso primeiro ensaio foi em uma sala debaixo do Viaduto do Chá, em São Paulo. Eu bati num tambor e falei: ‘Vai engrossar a voz’. A Dani encheu o peito e engrossou a voz, e eu fui lá abraçar ela. Desde o primeiro dia, foi muito bom.”
Gerald traz o texto para a contemporaneidade, atravessada por crises constantes e simultâneas e pela centralidade das redes sociais. “A rede social é feita para a gente se odiar, para provocar uma guerra civil entre todos os seres humanos no planeta. O Zuckerberg e esses putos todos criaram uma coisa maquiavélica de verdade. E nós todos somos engolidos por isso”, observa o diretor.
Para ele, a lógica das redes também produz uma sensação artificial de relevância, baseada em números de seguidores. “A pessoa se sente empoderada, né? Quer dizer, pessoas que não têm absolutamente nada a dizer, que não são porra nenhuma, e compram milhões de seguidores”, afirma. Provocador, o próprio diretor costuma questionar essa dinâmica em seu entorno: “Eu faço isso de sacanagem: confronto a pessoa que tem esses seguidores, apontando no celular: ‘Olha, é tudo robô’”.

No palco, com cenário assinado por Fernando Passetti, latas de sopa Campbell’s – imortalizadas em pinturas de Warhol – ganham nova vida nos quadros de Rinaldo Escudeiro, que também reproduz o rosto de Winits nas telas. Esses elementos mesclam-se a tecidos e escadas irregulares, que nasceram de desenhos de Gerald e ajudam a personagem a explorar novas perspectivas. “Eu sempre tento fazer cinema no palco e acabo fazendo teatro no palco mesmo”, sintetiza Gerald.
Nascido em Nova York, em 1954 – criado no Brasil, e atuando entre Estados Unidos, Brasil e Europa –, Gerald construiu uma carreira internacional marcada pela ruptura de convenções estéticas e pela fusão de linguagens. Em Choque!, a crítica social se constrói a partir das experiências das personagens e das contradições do mundo contemporâneo, sem assumir um tom panfletário. A montagem também olha para o próprio teatro e para sua capacidade de gerar conexões e reflexões. “Dentro do pessimismo tem muito humor”, ressalta o diretor.
Já Winits – com uma carreira que ganhou destaque na televisão a partir dos anos 1990, mais tarde se consolidando também nos palcos, especialmente em musicais – destaca a inquietação da protagonista diante de um mundo absurdo. “Ela acredita que extraterrestres entraram em contato e querem descobrir, por meio dela, se ainda existem sinais de vida inteligente no universo.”
“Simultaneamente, a personagem busca compreender quem são essas pessoas e o que elas representam no mundo de hoje. A dúvida que ela levanta é quase um paralelo ao ‘ser ou não ser, eis a questão’. Será que ela perdeu a sanidade? Ou foi a realidade que, de tão absurda, se tornou incompreensível?”, resume a atriz.
Quando: 15 e 16 de setembro de 2026
Horário: 20h
Onde: Salão de Atos da PUCRS (Av. Ipiranga, 6681 – Partenon – Porto Alegre)
Últimos ingressos à venda no site do Porto Alegre em Cena