A turnê de despedida de Gilberto Gil desembarca em Porto Alegre neste sábado (6/9), às 21h, no Estádio Beira-Rio. O cantor e compositor apresentará um repertório com mais de duas horas de duração, percorrendo uma trajetória de seis décadas de composições.
Ontem (4/9), em evento para convidados e imprensa no Instituto Ling, o músico lançou o songbook Tempo Rei, acompanhado da esposa e empresária, Flora Gil, dos filhos Bem Gil e José Gil, do diretor artístico da turnê, Rafael Dragaud, e do designer Daniel Kondo, idealizador e responsável pelo projeto gráfico da publicação, que reúne 30 letras e cifras emblemáticas de Gil, como Domingo no Parque, Aquele Abraço, Esotérico, Drão e Andar com Fé.

“Minha obra passa a ser dos outros, da memória coletiva, mas ela é essencialmente minha. Costumo dizer que componho e canto para mim mesmo. A primeira pessoa que me interessa como público sou eu, sem negar espaço aos outros”, disse Gil. “Nossa obra continua quanticamente ocupando dois espaços: um no meu próprio coração e outro no coração das pessoas”, completou o músico, que nesta sexta-feira (5/9), às 14h, recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com transmissão ao vivo pela UFRGS TV.
“Ver o livro realizado e a gente entrando na segunda metade da turnê é um orgulho e a realização de um trabalho grande”, afirmou Flora Gil na conversa sobre a publicação e os shows de Tempo Rei, que seguem até 2026.
Bem Gil destacou o desafio de tocar em estádios para dezenas de milhares de pessoas sem abrir mão da característica ritual dos concertos do pai. “Você tende a prender um pouco o show porque o espectador não está ali tão perto. Tentei fugir dessa armadilha para não perder a essência do que é o palco, especialmente para o meu pai”, contou o músico, que há duas décadas participa das turnês de Gilberto Gil.
Irmão mais novo de Bem, José Gil integra Tempo Rei na bateria, instrumento que já foi tocado por Pedro Gil (1970-1990), filho de Gilberto, falecido aos 19 anos em um acidente de carro. “Meu pai, em algum momento da turnê, passou a mencionar isso na hora de me apresentar. É sempre um momento muito emocionante. A primeira vez que ele falou isso foi arrebatador. Tem um âmbito espiritual e de ancestralidade. Eu tocar bateria com meu pai, depois do meu irmão, vai ser sempre um grande mistério e um grande presente”, afirmou José, que nasceu no ano seguinte à morte de Pedro.
Bem (guitarra), José (bateria) e o pai tocam no Beira-Rio acompanhados de João Gil (baixo), Nara Gil (voz), Flor Gil (voz), Mariá Pinkusfeld (voz), Diogo Gomes (sopro), Thiago Oliveira (sopro), Marlon Sete (sopro), Danilo Andrade (teclado), Leonardo Reis (percussão), Gustavo Di Dalva (percussão) e Mestrinho (sanfona). A banda inclui ainda as cordas de Clara Santos, Janaína Salles, Monique Cabral e Tamara Barquette. Será o primeiro show da turnê Tempo Rei após a morte de Preta Gil (1974–2025) em 20 de julho.

No texto de apresentação do songbook Tempo Rei, o diretor artístico da turnê, Rafael Dragaud, faz uma síntese do longevo percurso do “tropicalista que eletrificou a MPB, o exilado que tragou o rock londrino, o alquimista que fundiu baião e sintetizadores, o revolucionário afrofuturista, o imortal da Academia Brasileira de Letras em seu fardão profético da capa do LP de 1968, o ministro-griô da refazenda de memórias”.
A contracapa do livro resgata um comentário profético, publicado no encarte de Louvação (1967), álbum de estreia de Gil. Como que acessando uma dobra espaço-temporal, Caetano Veloso antecipa a grandeza de Gil ao longo das décadas seguintes. “A verdade mais profunda da beleza do seu trabalho está no risco que corre de descobrir uma beleza ainda maior: a capacidade de criar uma obra inteira, assumindo o Brasil inteiro”, escreveu Caetano.
Neste sábado, Porto Alegre pode cantar que o melhor lugar do mundo é aqui, em sintonia quântica com o coração de Gil.