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Grace Gianoukas interpreta Dercy Gonçalves para além da caricatura

Com direção de Kiko Rieser, espetáculo “Nasci para Ser Dercy” será apresentado em três sessões no Teatro Simões Lopes Neto

Grace Gianoukas interpreta Dercy Gonçalves para além da caricatura
Foto: Heloísa Bortz

Engraçada, irreverente e desbocada são adjetivos que costumam acompanhar o nome de Dercy Gonçalves (1907 – 2008). Para além da imagem caricaturesca da humorista fluminense, o espetáculo Nasci para Ser Dercy evidencia o pioneirismo da atriz na comédia brasileira. Com direção de Kiko Rieser, a peça integra a programação do Porto Verão Alegre, no sábado (24/1), às 17h30 e às 20h, e no domingo (25/1), às 18h, no Teatro Simões Lopes Neto.

“Todos os dias, eu subo ao palco imbuída do propósito de fazer justiça para Dercy Gonçalves e todas as atrizes dessa época, que eram obrigadas a ter uma carteirinha do Ministério da Saúde que dizia ‘prostituta’”, afirma Grace Gianoukas, que interpreta Dercy no monólogo – assista ao vídeo da entrevista.

Na montagem vencedora do Prêmio Bibi Ferreira 2023 de melhor dramaturgia original, Gianoukas – que recebeu os troféus Shell e APCA pela atuação – vive a atriz Vera Finarelli, convidada a interpretar Dercy Gonçalves em um filme. No teste de elenco, a artista se revolta com a visão simplista de Dercy apresentada por um “diretor eletrônico” (voz de Miguel Falabella). A partir daí, vem à tona uma versão mais complexa de Dolores Gonçalves Costa, nome de batismo de Dercy.

O espetáculo, conta Gianoukas, mostra como Dercy “construiu um tempo de comédia brasileiro” – sem obter o devido reconhecimento pelo seu trabalho – e defendeu as liberdades individuais. “Claro, nascida no seu tempo, tinha seus preconceitos e piadas incorretas que hoje não seriam feitas, mas a Dercy estava sempre pensando as liberdades e os direitos das pessoas serem o que são. Isso está muito vivo no espetáculo.”

Foto: Heloísa Bortz

A atriz gaúcha – uma das criadoras do projeto Terça Insana, atualmente estrelando a novela das seis Êta Mundo Melhor, da Globo – destaca que Dercy “apanhou muito para se enquadrar, e não se enquadrou, porque ela tinha uma personalidade e originalidade muito forte. Acabou saindo de Santa Maria Madalena (RJ) com muitas dores e mágoas”.

Dercy fugiu de casa aos 17 anos, escapando de um contexto familiar violento, para se juntar a um grupo circense. Após anos de carreira no circo, a partir dos anos 1930 ganhou notoriedade como cantora e atriz no teatro de revista. Atuou no cinema por mais de seis décadas, dos anos 1940 aos 2000, em filmes como Samba em Berlim (1943), A Baronesa Transviada (1957), A Grande Vedete (1958) e Cala a Boca, Etelvina (1958). Na televisão, a partir dos anos 1960, teve passagens por emissoras como Excelsior, Globo e SBT.

Tema de samba-enredo da Unidos da Viradouro em 1991 – quando desfilou na Sapucaí com os seios à mostra –, Dercy foi biografada por Maria Adelaide Amaral no livro Dercy de Cabo a Rabo (1994). Reconhecida pelo Guinness Book pela mais longeva carreira de atriz do mundo – 86 anos nos palcos e sets de filmagem –, morreu em 2008, aos 101 anos.

Foto: Heloísa Bortz

Dercy teve uma filha, Maria Dercimar Gonçalves, que assistiu à estreia de Nasci para Ser Dercy, em 2023, meses antes de falecer, recorda Gianoukas na entrevista à Matinal. Com 44 anos de trajetória, nascida em Rio Grande, a atriz também fala sobre a importância de Dercy para a comédia brasileira e o papel do humor para lidar com as dores da vida.

“O teatro é uma arte viva que se abastece de emoções. Parece que a cada nova temporada eu estou mais preenchida de histórias da Dercy Gonçalves”, diz Gianoukas.

Na conversa, ela também revela que, ao lado do escritor Gil Veloso, fará leituras dramáticas de contos de Caio Fernando Abreu – uma homenagem ao autor porto-alegrense no ano em que se completam 30 anos de sua morte. “Foi o Caio que me estendeu a mão e me levou pra São Paulo. Se hoje tenho um lugar na arte brasileira, a primeira pessoa que viu e me estendeu a mão foi o Caio”, recorda Gianoukas.

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Espetáculo “Nasci para Ser Dercy”, com Grace Gianoukas e direção de Kiko Rieser

Quando: 24 de janeiro (sábado), às 17h30 e 20h; 25 de janeiro (domingo), às 18h
Onde: Teatro Simões Lopes Neto (Rua Riachuelo, 1089 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Ingressos: entre R$ 25 e R$ 120, à venda no site do Porto Verão Alegre
Duração: 80 minutos

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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