Novo filme do cineasta Fabio Meira, Mambembe (2024) viaja pelos sertões do Norte e do Nordeste registrando o cotidiano de artistas de circos populares. O longa mistura documentário e ficção, acompanhando um topógrafo itinerante que cruza o caminho de três mulheres ligadas ao mundo circense.
Mambembe apresenta-se como um ensaio audiovisual sobre a tentativa de se fazer um filme. “Era um roteiro de ficção política e de época, com muitos personagens: artistas de circo, garimpeiros e indígenas. Tentei por dois anos produzir o filme, mas foi impossível. Inspirado por Pier Paolo Pasolini e seu Notas para uma Oréstia Africana, decidi fazer o filme de outra forma, com pessoas reais e baixo orçamento”, explica o diretor e roteirista Fabio Meira.

Em 2010, o realizador visitou 63 circos e selecionou três mulheres para interpretar suas personagens. Por vários motivos, o projeto não avançou. Dez anos depois, Meira retomou as filmagens, reunindo figuras autênticas com atores e atrizes profissionais em uma narrativa que transita entre o documental e o ficcional.
A trama de Mambembe gira em torno do envolvimento furtivo do topógrafo Ruy (Murilo Grossi) com três mulheres de um circo itinerante: a proprietária Índia Morena – declarada Patrimônio Vivo de Pernambuco e uma das maiores referências da arte de circo no país –, a artista trans Madona Show e a malabarista Jéssica (Dandara Ohana). Entre os quatro ensaia-se uma ciranda de afetos, tendo como pano de fundo a vida ao mesmo tempo dura e lúdica sob a lona e a realidade precária do Brasil profundo.

"O filme registra todo esse processo, misturando documentário e ficção, mas, acima de tudo, confiando na emoção que vem de suas personagens”, diz o diretor a respeito dessa reflexão sobre o tempo, a arte circense e o cinema.
As mulheres estão sempre no centro das produções do goiano Fabio Meira. Seu primeiro longa, As Duas Irenes (2017), estreou no Festival de Berlim e recebeu cinco prêmios no Festival de Gramado.

O seguinte Tia Virgínia (2023) – protagonizado por Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso – levou seis troféus no evento gaúcho, além de ser indicado a sete categorias no Grande Otelo. Com Mambembe, Meira propõe uma jornada poética sobre desejo e memória – o protagonista masculino é inspirado no pai do realizador, que também era topógrafo –, transformando o próprio ato de filmar ao longo de 15 anos em parte da narrativa.
Mambembe evoca referências cinematográficas diversas: de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, filme híbrido entre documentário e ficção cujo protagonista é um geólogo que topa com diversas pessoas em suas andanças pelas estradas nordestinas, a Iracema: Uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e Bye Bye Brasil (1980), de Cacá Diegues – ambos retratos de um povo e um país marcado por pobreza, marginalização e esperança.

Mambembe: * * * *
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