Jacob Prudêncio Herrmann (1896 – 1967) viajou à Alemanha em 1929 e voltou de lá com uma câmera Zeiss Ikon. Não se sabe muito bem o que despertou seu interesse pela fotografia, mas ao longo dos anos 1930 e 1940, Herrmann produziu imagens de cenas domésticas, paisagens, tipos humanos, naturezas-mortas e o cotidiano de Porto Alegre – mais de 1.000 fotografias em vidro e película.

O acervo de fotógrafo, mantido por sua família, foi digitalizado e será disponibilizado em uma plataforma digital com lançamento nesta quinta-feira (24/4), às 18h30min, no Centro Cultural da UFRGS. O site do projeto – www.jacobherrmann.com.br – entrará no ar em breve, reunindo as imagens e informações que contextualizam os registros.

A primeira aparição pública de imagens do fotógrafo em tempos recentes se deu em 2002, com a exposição Jacob Prudêncio: Uma Visão Estética e Histórica da Porto Alegre da Década de 30 – que inaugurou a Fotogaleria Virgílio Calegari, na Casa de Cultura Mario Quintana –, com curadoria do artista visual Jorge Herrmann. O neto do fotógrafo também é curador e coordenador do projeto atual – viabilizado por recursos da Lei Paulo Gustavo.
A iniciativa envolve uma equipe multidisciplinar em tarefas como a digitalização, catalogação e pesquisas, da qual faz parte Luzia Rodeghiero, que dedicou sua dissertação de mestrado na UFPel a grupos de fotógrafos amadores de Porto Alegre – como o Photo-Club Helios, fundado em 1907, que teve Herrmann como um de seus integrantes.

“Seu talento artístico, aliado ao conhecimento que era compartilhado e obtido nas reuniões do Helios, além de garantir a criação de imagens memoráveis, foi uma força persistente que contribuiu para a sobrevida do fotoclube até o limite imposto pelas circunstâncias que levaram à sua extinção”, afirma a pesquisadora, referindo-se às dificuldades enfrentadas para a obtenção de materiais fotográficos, a partir do início da 2ª Guerra Mundial, que levaram o Helios a encerrar suas atividades em 1949.
“Ele deixou muitas informações que acondicionavam os negativos de vidro, mas quando começa a fotografar com celuloide, não há essas informações. Temos mais de 800 negativos com autoria comprovada do Jacó”, explica o neto do fotógrafo, ressaltando que as pesquisas em torno do acervo seguirão após o lançamento da plataforma.

Jorge conta que o avô, em paralelo à atuação como contador e “fotógrafo de fim de semana”, se dedicava também à música – era percussionista do Club Haydn, orquestra sinfônica que reunia músicos amadores em concertos trimestrais no Theatro São Pedro.
“Ele também era orquidófilo, escrevia poesia e consertava nossos brinquedos na sua oficina. Tenho lembranças muito boas dele”, recorda Jorge, que conviveu com Jacob até os 8 anos de idade.
“O que me chama mais atenção no acervo são os tipos humanos que ele retratou. Sendo de uma comunidade alemã, em tempos de muito preconceito de estrato social e raça, ele aparentemente não tinha essa leitura da realidade dele. Há retratos de trabalhadores, da comunidade negra, de indígenas e de pessoas em situação de rua”, observa o neto.

“A fotografia era quase um momento solene naquela época. Mas os fotografados por ele parecem muito à vontade. Imagino que a abordagem dele era muito cuidadosa”, completa Jorge.

Responsável pela pesquisa histórica sobre processos fotográficos, Kátia Becker Lorentz desta o legado de Herrmann no que diz respeito à história de Porto Alegre: “as fotografias de Jacob e suas relações com a cidade ajudam a compreender a história e a evolução urbana nas suas mais diversas funções, morfologia e tipologias”.
Para o arquiteto Analino Zorzi, as fotografias de Herrmann possibilitam compreender a arquitetura e o desenvolvimento urbano de Porto Alegre na primeira metade do século 20. “Percebemos claramente os diversos momentos, com características distintas, da paisagem urbana e dos estilos arquitetônicos”, explica.
Além da plataforma online e do lançamento na UFRGS, o projeto contempla visitas a escolas para apresentar a trajetória de Herrmann e o cotidiano retratado pelo fotógrafo.