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Shakespeare enlutado

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" ganhou o Globo de Ouro de melhor drama

Shakespeare enlutado
Universal/Divulgação

Vencedor dos prêmios Globo de Ouro de melhor drama e atriz (Jessie Buckley), Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) é uma dolorida e profunda reflexão sobre luto e perda. O filme dirigido por Chloé Zhao especula como a morte do filho pequeno de William Shakespeare pode ter marcado a relação do bardo inglês com a esposa e influenciado a criação de sua obra-prima teatral.

Inspirado no romance Hamnet (2020), da escritora irlandesa Maggie O’Farrell, o longa narra o encontro entre Agnes Hathaway (Buckley) e o jovem professor e aspirante a dramaturgo William Shakespeare (Paul Mescal) na Inglaterra rural de fins do século 16. Oito anos mais velha do que o escritor, Agnes herdou da mãe curandeira o conhecimento sobre as propriedades das ervas e uma forte conexão com a natureza.

O namoro logo vira casamento, e ambos levam uma vida idílica no campo, apesar das dificuldades, até que Hamnet, filho de 11 anos da dupla, morre de peste. A tragédia devasta Agnes e atormenta William com o sentimento de culpa.

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A morte do garoto afasta aos poucos o casal, que lida de maneiras distintas com a dor: enquanto Agnes luta para não sucumbir à melancolia, William dedica-se a escrever a peça que eternizaria seu gênio, sobre um jovem príncipe dinamarquês, consumido pela tristeza e a indignação com a morte do pai.

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é sobre amor e morte, e sobre como essas duas
experiências humanas fundamentais podem se tornar alquímicas e se transformar uma na outra por meio da arte e da narrativa. É uma história de metamorfose", escreveu a diretora e roteirista Chloé Zhao, acrescentando que o filme entrou na vida dela "como um sussurro que cresceu até virar uma tempestade. Ao final da jornada, eu estava nutrida. Experimentei verdadeiramente como é viver de coração aberto no olho do furacão a beleza, a dor, o êxtase à beira da aniquilação e do silêncio". A realizadora chinesa ganhou o Oscar de direção por Nomadland (2020), que também levou a estatueta de melhor filme.

A partir das rarefeitas e inconclusivas informações sobre a vida privada de Shakespeare, Hamnet ficcionaliza o cotidiano doméstico do autor, especialmente antes da celebridade e do sucesso de suas montagens no Globe Theatre londrino. A figura central da história, aliás, é Agnes: por meio do seu olhar é que observamos o marido consumido por remorso, saudade e ambição criadora ⎯ em uma comovente atuação de Jessie Buckley, que já desponta como favorita ao Oscar de atriz deste ano.

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Antes da arrebatadora montagem de Hamlet no ato final, o filme insinua ao longo da narrativa como episódios corriqueiros e brincadeiras familiares podem ter influenciado Shakespeare na redação de clássicos como Romeu e Julieta, Macbeth e Noite de Reis ⎯ o espectador é desafiado a encontrar nos diálogos e cenas referências ao universo do dramaturgo.

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Além das atuações de todo o elenco, inclusive dos jovens atores e atrizes que interpretam os filhos do casal protagonista, merecem destaque em Hamnet a belíssima fotografia de Łukasz Żal e comovente música do compositor britânico-alemão Max Richter.

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Hamnet: A Vida Antes de Hamlet: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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