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Um grupo de travestis desafia o preconceito no norte do Chile

"O Olhar Misterioso do Flamingo" se passa no começo da epidemia de Aids

Um grupo de travestis desafia o preconceito no norte do Chile
Imovision/Divulgação

Vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes, o curioso filme O Olhar Misterioso do Flamingo (2025) acompanha o convívio conflituoso e ambíguo de um grupo de travestis e uma comunidade de mineiros no norte do Chile pelo olhar de uma órfã adolescente no começo dos anos 1980.

O longa teve sessão especial na última terça-feira (24/3) em São Paulo com as presenças do diretor e roteirista Diego Céspedes, da atriz Paula Dinamarca e do ator Matías Catalán.

Ambientado em 1982, em uma isolada cidade mineradora no deserto chileno, o filme acompanha Lidia (Tamara Cortes), uma menina de 12 anos que vive em um povoado marcado pela aridez e pelo silêncio. A garota mora em uma casa com artistas travestis, administrada pela veterana Mama Jiboia (Dinamarca).

Imovision/Divulgação

Quando uma doença desconhecida e mortal começa a se espalhar, afetando inclusive Flamingo (Catalán), que cuida de Lidia como se fosse sua mãe, um rumor aterrorizante toma conta do vilarejo: o contágio aconteceria por meio de um simples olhar trocado com os homossexuais locais. Com o medo se instaurando e sua família afetiva sendo apontada como culpada, a jovem inicia uma jornada para descobrir se a lenda é apenas fruto do preconceito ou se há algo de verdadeiro por trás do mito.

Indicado pelo Chile para representar o país na disputa por uma vaga ao Oscar na categoria de melhor filme internacional, O Olhar Misterioso do Flamingo recupera os primeiros tempos da epidemia da Aids, em que desinformação e discriminação contribuíram para estigmatizar ainda mais a comunidade homossexual, acusada de disseminar uma doença que era chamada por muitos na época de "câncer gay". O jovem realizador Diego Céspedes ganhou projeção internacional com os curtas El Verano del León Eléctrico (2018), vencedor prêmio da Cinéfondation em Cannes, e Las Criaturas que se Derriten Bajo el Sol (2022), protagonizado pela atriz e ativista trans Paula Dinamarca.

Imovision/Divulgação

Mesmo abordando com seriedade e sensibilidade os problemas enfrentados pelas personagens queer, que incluem exclusão social e violência física, O Olhar Misterioso do Flamingo não dispensa na trama o humor e o afeto ⎯ as situações românticas às vezes parecem artificiosas e mesmo improváveis. Um dos méritos do filme é equilibrar os diferentes registros narrativos, que vão do drama à comédia, passando pelo musical e até pelo western.

Imovision/Divulgação
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O Olhar Misterioso do Flamingo: * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de O Olhar Misterioso do Flamingo:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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