Clássico do cinema brasileiro, Xica da Silva (1976) volta aos cinemas em versão restaurada em 4K quando completa 50 anos de seu lançamento. O filme dirigido por Cacá Diegues e protagonizado por Zezé Motta é baseado na história de uma negra escravizada que na segunda metade do século 18 confronta a sociedade colonial ao tornar-se companheira de um rico dono de minas de diamante.
Na trama, João Fernandes (Walmor Chagas), representante da Coroa Portuguesa na região mineira de Diamantina, apaixona-se por Xica da Silva (Zezé) e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário, o Conde de Valadares (José Wilker), a fim de impedir que cresça o poder da negra já alforriada na colônia.

Xica da Silva levou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas na época da sua estreia, revolucionando a forma de representar personagens negros no audiovisual brasileiro ao colocar uma mulher preta no centro absoluto da narrativa. Em um momento no qual o Cinema Novo ainda exercia forte influência sobre a produção nacional, o diretor Cacá Diegues encontrou um caminho próprio ao combinar humor, erotismo, música, espetáculo e crítica histórica, social e política em uma linguagem popular.
Adaptado do livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio, de João Felício dos Santos, o longa criou uma versão irreverente, sensual e subversiva da personagem histórica, frequentemente interpretada como um comentário ousado – ainda que indireto – sobre o regime autoritário vigente no Brasil na época de sua produção e lançamento.

Para Zezé Motta, a permanência do filme em relevância ao longo de cinco décadas está diretamente ligada à atualidade das questões que ele levanta: "Acho que Xica da Silva atravessou o tempo porque nunca foi apenas um filme. Ele abriu uma conversa importante sobre poder, raça, desejo, liberdade e sobre as contradições da formação do Brasil. Cinquenta anos depois, muitos dos temas que o filme provoca ainda estão presentes na nossa sociedade, e isso faz com que ele continue dialogando com diferentes gerações".
Além de representar um marco na carreira de Cacá Diegues, Xica da Silva consagrou Zezé Motta como um dos maiores nomes do cinema brasileiro. Sua interpretação da protagonista lhe rendeu alguns dos principais prêmios nacionais da época e ajudou a transformar a personagem em um símbolo da cultura brasileira e das discussões sobre representação racial no audiovisual.

"Para mim, também existe um aspecto muito simbólico. Naquele momento, ver uma mulher negra ocupando o centro da narrativa, com tanta força, complexidade e protagonismo, era algo muito raro no cinema brasileiro. A Xica rompeu barreiras e ajudou a ampliar o imaginário sobre os lugares que pessoas negras podem ocupar na arte", afirma a artista, que recebeu pelo papel o prêmio Candango de melhor atriz no Festival de Brasília – que ainda destacou a produção com os troféus de melhor filme e direção.
Acredito que a permanência desse filme também passa pela coragem de todos os envolvidos em contar uma história que desafiava padrões e incomodava. A arte tem esse poder: ela pode envelhecer, mas, quando toca em questões humanas profundas, continua viva. É por isso que me emociona ver jovens que nem eram nascidos quando o filme foi lançado, assistindo a Xica da Silva hoje e encontrando nele reflexões que ainda fazem sentido."
Curiosamente, a grafia do nome da personagem histórica é com "ch", foi Cacá Diegues que cunhou e eternizou Xica com "x".

Xica da Silva: * * * *
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