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"Zafari" coloca um hipopótamo no quintal da Venezuela

Filme é uma metáfora da crise política, econômica e social do país

"Zafari" coloca um hipopótamo no quintal da Venezuela
Vitrine Filmes/Divulgação

Misturando distopia, alegoria, terror e crítica político-social, Zafari (2024) coloca um hipopótamo na vizinhança de um condomínio em Caracas. O sexto longa-metragem da venezuelana Mariana Rondón imagina uma sociedade em que a população enfrenta a ausência das regras sociais, a falta de trabalho e, sobretudo, de comida.

Na trama, um pequeno zoológico na capital venezuelana recebe um hipopótamo. A chegada de Zafari ⎯ nenhuma relação com o supermercado brasileiro, cujo distintas, aliás, é um esquilo ⎯ é percebida de diferentes maneiras por vizinhos de diferentes classes sociais.

A família do casal Ana (Daniela Ramírez) e Edgar (Francisco Denis) acompanha as comemorações da janela de seu apartamento em um condomínio decadente de classe alta. Em meio ao caos gerado pela escassez de alimentos, água e energia elétrica, eles precisam resolver problemas cotidianos enquanto tentam encontrar uma solução financeira para deixar o país.

Vitrine Filmes/Divulgação

A mãe percorre o prédio à procura de comida nos apartamentos abandonados, mas ruídos estranhos pelos corredores escuros a amedrontam cada vez mais. Em um ambiente cada vez mais selvagem ⎯ em que o silêncio é interrompido pelo barulho perturbador de misteriosos motociclistas rondando a cidade em patrulhas ⎯, Zafari, enorme mamífero aos cuidados dos trabalhadores Natalia (Samantha Castillo) e seu companheiro, é o único que ainda tem o que comer.

“Para nós era realmente importante realizar esse filme e apresentar ao espectador a pergunta: até onde seríamos capazes de chegar se isso acontecesse com a gente? Conseguiríamos permanecer estáveis? Conseguiríamos ter um sistema ético? Ou simplesmente viveríamos em um mundo selvagem sem trégua?”, questiona a diretora e roteirista Mariana Rondón a respeito de sua metáfora sobre uma Venezuela fraturada.

Vitrine Filmes/Divulgação

Para a peruana Marité Ugás, corroteirista do filme, o encontro da ironia com o cinema de gênero ajuda a tocar nos temas que são caros à dupla de realizadoras: “Todos os elementos apontavam para a necessidade de dar um passo em direção ao suspense e também um pouco ao terror. Mostrar a sensação física da fome nos pareceu importante para contar a história”.

A trajetória de Zafari começou na seção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, onde o longa teve sua première. Entre os títulos da filmografia de Rondón estão Postais de Leningrado (2007), que lhe rendeu um prêmio para jovens cineastas na Mostra Internacional de São Paulo, e Pelo Malo (2013), premiado nos festivais de Havana e Mar del Plata ⎯ além de vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián. Depois de Zafari, a cineasta dirigiu Ainda É Noite em Caracas (2025), que teve estreia no Festival de Veneza e também foi exibido no Festival de Toronto.

Vitrine Filmes/Divulgação

Zafari: * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Zafari:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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