Olá!
A ideia de investigar as emendas parlamentares na Matinal surgiu ano passado, durante o 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Abraji. Entre as dezenas de oficinas sobre métodos de investigação jornalística, várias se debruçaram sobre como descobrir onde iam parar os bilhões das emendas. Hoje, quase 20% do orçamento público está nas mãos de deputados federais e senadores. É muito dinheiro.
A própria Abraji, enquanto entidade que atua na promoção do jornalismo investigativo, havia entrado com uma ação no STF contra as emendas Pix, exigindo mais transparência – ainda hoje há problemas para rastrear para onde vão os recursos, apesar das novas regras determinadas pelo ministro Flávio Dino.
Os grandes jornais, como Folha de S.Paulo e O Globo, já estavam colocando seus repórteres para seguir o dinheiro. Saíram reportagens explosivas sobre o desvio e o direcionamento de emendas por Arthur Lira (PP), à época presidente da Câmara Federal, que geraram investigações do Supremo. Aliás, não fosse o jornalismo, jamais saberíamos do acordo tramado por Lira e um secretário do governo Bolsonaro para criar o que a imprensa batizou de “Orçamento Secreto”.
Os grandes jornais, com audiência nacional, sempre miram nos grandes figurões do Congresso. Mas os peixes pequenos? Quem investigaria os deputados e senadores gaúchos, fora do radar? Foi então que estimulei o repórter Thiago Muller, que faz parte da classe – importantíssima – de jornalistas que sabem navegar as grandes bases de dados públicas, para rastrear as emendas dos parlamentares gaúchos nos dois últimos mandatos.
O banco de dados ficou tão completo que decidimos criar o Emendômetro, uma ferramenta de inteligência cívica, como o Francisco Amorim, o mestre dessa classe de jornalistas, o batizou. Foi o Chico que organizou os dados de forma que todos possam fiscalizar o seu deputado.
Mas cabe a nós, repórteres da Matinal, fazer o trabalho pesado: investigar as emendas. Por onde começar? Aí entram os critérios jornalísticos, que nem sempre ficam claros ao público. E cabe também a nós explicar.
O Emendômetro explica bem (leia aqui) o trabalho chato de formatar e consolidar os números. Mas existe um outro trabalho, ainda mais árduo, que é descobrir onde podem haver desvios, mau uso do dinheiro público ou injustiças flagrantes. Um dos problemas das emendas Pix é que quase não há regras e/ou critérios. Como mostramos, elas podem ir para a construção de uma cruz gigante ou para um show gospel, em que se pedem orações para políticos.
Mas como chegamos a esses casos? Primeiro, elegemos investigar as emendas Pix, que são as menos transparentes e que exigem um esforço de reportagem difícil a um não jornalista.
Como são pouco transparentes, o leitor pode se perguntar por que um parlamentar usa essa modalidade de envio difícil até para o próprio parlamentar fiscalizar? Quem ganha um cargo público para fiscalizar os gastos do governo federal não pode gastar mal ou visar só benefícios eleitoreiros.
Fizemos, então, uma lista dos parlamentares que mais usaram esse tipo de recurso. Descobrimos que a direita disparou na frente da esquerda no uso das emendas pix e no valor destinado por meio delas.
No total, os 21 parlamentares de direita gastaram R$ 893,8 milhões contra R$ 219 milhões da bancada de centro-esquerda e esquerda. Somente um partido não gastou com este tipo de emenda alvo da ação da Abraji, o PSOL – a deputada Fernanda Melchionna, representante do partido, não usou. Essa é uma informação importante em época de eleições.
Mas alguns leitores questionaram por que só falamos da direita – e contribuímos, de algum modo, com esse ambiente de polarização. Eles têm razão: nas reportagens seguintes destacamos os casos dos deputados mais gastadores, como Bibo Nunes (PL) e sua cruz monumental; e Marcelo Moraes (PL) e os recursos para uma estrada em um cinturão verde do município governado por seu pai, Sérgio Moraes (PL).
Ocorre que elegemos um critério e estamos seguindo ele. Os partidos de direita são os que mais usam emendas que dificultam ao cidadão rastreá-las e merecem mais atenção jornalística. Mas isso não significa que a esquerda não será investigada. Se descobrirmos um indício de mau uso, iremos noticiar da mesma forma, com a mesma correção, como fizemos com a reportagem de Luciano Zucco.
O candidato enviou emendas que dizem muito sobre sua prioridade: segurança pública. Financiou armas, veículos e outros equipamentos para as polícias. Mas destinou R$ 200 mil a um evento que serviu como propaganda política: o organizador, o cantor e a empresa que prestou serviço eram de aliados políticos e/ou eleitores. É correto usar recursos públicos em benefício próprio?
Outro caso que suscitou uma avalanche de comentários nas redes sociais foi o da família Covatti. Covatti Filho, o terceiro deputado gaúcho que mais gastou em emendas Pix, deu R$ 1,1 milhão para climatizar o Hospital Santa Cruz (sua esposa, Nicole Weber Covatti, anunciou R$ 1,3 milhão nas redes sociais). A emenda chegou ao destino e deve ter ajudado muita gente.
A questão ali é que quem entregava as emendas não era o deputado, mas Nicole Weber Covatti, vereadora de Santa Cruz e candidata a deputada federal. Ela se autointitulava representante do parlamentar. Covatti Filho chegou a mandar recursos federais direto para a conta da esposa, com quem casou no ano passado. Em outro caso, ela fez um “checão” com o seu próprio nome para ilustrar a doação a uma Apae e postar no Instagram e no site da Câmara local. Mas o recurso veio do marido e… é nosso.
Vamos seguir reportando os casos com indícios de mau uso, que estão indo para obras polêmicas ou que não chegaram a seu destino. E seguiremos explicando aqui por que cobrimos o que cobrimos.
Com o Emendômetro, caro leitor, você também pode fiscalizar o seu parlamentar. Se notar algo estranho, envie um e-mail para silvia@matinal.org.
Ajude a Matinal a seguir investigando quem é eleito pelo povo – e também quem não tem cargo público, mas pode estar recebendo vantagens indevidas.
A campanha de arrecadação para manter o Emendômetro Matinal no ar até 2030 acaba neste domingo (4/10), e ainda precisamos muito do seu apoio! Você pode ajudar fazendo a sua assinatura, dando uma de presente ou fazendo uma doação de qualquer valor via Pix usando o QR Code abaixo:

Abraço,
Sílvia Lisboa
Editora investigativa
Matinal. Porto para quem se importa.