O momento vivido por Inter e Grêmio tem diferenças dentro de campo, mas uma origem semelhante fora dele. Os dois clubes continuam enfrentando dificuldades que vão além de treinadores, contratações ou resultados. O problema está no modelo de gestão.
O futebol brasileiro se transformou em uma indústria bilionária. Direitos de transmissão, patrocínios, premiações, marketing, licenciamento e negociação de atletas movimentam valores que, há duas décadas, seriam impensáveis. Mesmo assim, boa parte dos grandes clubes ainda é administrada sob uma lógica associativa que parece não acompanhar a complexidade do negócio.
Durante muito tempo, o dirigente abnegado foi tratado como uma virtude do futebol brasileiro. O empresário, advogado, médico ou comerciante que deixava parte da sua vida profissional para se dedicar ao clube era visto como alguém merecedor de reconhecimento. E de fato foi importante em uma determinada época. Mas o futebol atual exige outra estrutura.
Não faz sentido administrar orçamentos que superam centenas de milhões de reais por ano com base na boa vontade, na paixão ou na experiência adquirida em outras áreas. A gestão do futebol tornou-se uma atividade profissional e precisa ser tratada como tal.
Profissionalizar não significa necessariamente transformar um clube em SAF. Existe uma falsa impressão de que a única saída para o futebol brasileiro é vender o controle para investidores. Não é. O que os clubes precisam é funcionar como empresas, mesmo preservando seu modelo associativo.
Os exemplos mais consistentes do país mostram justamente isso. Os clubes mais organizados do futebol brasileiro construíram estruturas permanentes de gestão, com profissionais especializados ocupando funções estratégicas, metas definidas, avaliação de resultados e processos que sobrevivem às mudanças políticas.
A grande diferença é que os gestores não podem estar vinculados a um presidente ou a um grupo político. Devem estar vinculados ao projeto do clube. O conceito central precisa ser eficiência, não camaradagem.
Quando cada nova direção chega e substitui departamentos inteiros por pessoas da sua confiança, o clube recomeça do zero. Perde conhecimento acumulado, interrompe projetos e transforma a gestão em um ciclo de improvisação.
O principal patrimônio de Inter e Grêmio não são seus estádios, seus centros de treinamento ou suas marcas. É o futebol. Tudo deve estar organizado para potencializar esse ativo. Da presidência executiva ao departamento de análise de mercado, da preparação física à comunicação.
O futebol brasileiro já entrou no século XXI. A pergunta que fica é se seus dirigentes estão dispostos a entrar também.
Porque o futuro não pertence necessariamente às SAFs. Pertence aos clubes que compreenderem que paixão é indispensável para torcer, mas insuficiente para administrar.