Confira todos os textos da edição #324
- Milton Santos, geógrafo, filósofo, intelectual, negro, centenário, inspirador, por Adriana Dorfman
- Espaços de resistências: como a força coletiva impõem novas estratégias para o debate do espaço do cidadão de Milton Santos, por Claudia Pires
- Um curral chamado senado, por Juremir Machado da Silva
- Diversidade cultural e política de cotas – Parte I, por Álvaro Magalhães
- O rock gaúcho – Parte VI – Ainda os dos 1960: Mutuca, Chaminé, por Arthur de Faria
- A Bienal de Veneza de Koyo Kouoh: como traduzir In Minor Keys?, por Samantha Buglione
- O que vem depois do 13? O 17!, por Fernando Seffner
- Crônicas animais – O causo do colhudo que “morreu de brabo”, por Marília Kosby
- Hifanações a partir de Patrícia Portela, por Raphaela Flores
- Entre o mundo e eu – Capítulo IV, por Marlon Pires Ramos
- Eduardo Devens: “Mas é um homem de cuecas?”, por Jandiro Koch
É necessário preservar a alegria
A receita começa assim: corta a cebola e o alho bem picadinho. Vou colocar uma música. Uma boa receita começa com uma boa música. Quando a voz do Al Green flutuava na cozinha comecei a sentir melhor o perfume dos alimentos. Panela no fogo. Uma colher de margarina, coloca o alho, deixa dourar, depois a cebola. Ouve esse barulhinho. Sente esse cheiro. O alho fritando dá uma sensação de memória. Agora a carne. Também deixa fritar bem. Uns pedacinhos de tomate, se tiver tomate. Se não tiver, vai só molho de tomate mesmo. Duas colheres de requeijão, duas de creme de leite. Aquela pitada de sal, uma colherinha de chá de orégano. Se tiver um queijo ralado pra finalizar, me sinto chef de cozinha.
Natália estava sentada num banco na cozinha, enquanto eu performava um cozinheiro muito experiente tentando disfarçar meu nervosismo. Primeira vez que eu cozinhava nosso jantar. Fazia tudo com calma e atenção. Bem como aprendi com minha avó.
O que quer que você queira fazer
Por mim está tudo bem
Pois você me faz sentir novinho em folha
Madame, temos carne ao molho de requeijão. Arroz branco e batata palha. Salada de alface americana com tomatinho cereja. Coloquei um pano de prato no braço, fiz uma pose e comecei esse discurso.
Bobo. Vem comer. Tô com fome.
O sorriso de satisfação encheu meu coração de dever cumprido. Não sabia se era fome ou se a comida estava saborosa, contudo ela limpou o prato e repetiu.
Nossa! Que comida gostosa! Onde você aprendeu a cozinhar assim?
Dona Terezinha que me ensinou.
Eu amo tua avó!!!
Rimos.
***
Quer ir ao cinema comigo?
É claro que eu quero!
Nosso primeiro cinema. Filme da Whitney Houston. O nervosismo tomou conta do meu coração. Tentava respirar fundo, ter calma, contudo uma felicidade imensa. Coloquei minha melhor roupa. Ela toda arrumada como uma diva pop afro-americana. Uber-ingresso-pipoca-filme. Esse era o roteiro na minha cabeça. Chamei o carro. Uber black na promoção? Nem pensei, vai ser esse mesmo! Nossa, que carro bonito ela disse. Primeira etapa concluída com sucesso.
Na hora do ingresso, ela tomou a dianteira. Pessoas PCD têm direito a meia-entrada. Ela e o acompanhante. Fiquei surpreso com a iniciativa e com a facilidade dela falar. Segunda etapa concluída.