Confira todos os textos da edição #312
- Os Homens e as Coisas, por José Mário Neves
- Estranhando Paris, por Luís Augusto Fischer
- Histórias de Autógrafos: Wim Wenders em duas fotos de seus filmes, por Carlos Gerbase
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte II, por Jandiro Koch
- De Recibo de Pagamento Autônomo para Contrato por Temporada, por Márcio Chagas e Thiana Orth
- Sopram novos e bons tempos para a arbitragem brasileira, por Carlos Simon
- Lei Rouanet, dados e polarizações, por Álvaro Magalhães
- A medida das coisas humanas – Capítulo II, por Helena Terra
- A honestidade de desistir, por Carlos André Moreira
- Romance de Sandro Veronesi reinventa o tema do primeiro beijo, por Juremir Machado da Silva
Em agosto de 2008, fui convidado pelo Fronteiras do Pensamento para entrevistar o cineasta alemão Wim Wenders no palco logo após sua palestra no auditório da reitoria da UFRGS. Como havia tradução simultânea, aceitei na hora. Conhecia bem a obra de Wenders desde as memoráveis sessões de seus primeiros filmes no Instituto Goethe e na Assembléia Legislativa, no início dos anos 1980, geralmente acompanhado de meu amigo e colega de faculdade Nelson Nadotti. Sabendo que estaria na presença de um diretor que admiro muito, imprimi duas fotos de cena, referentes a Alice nas cidades e Com o passar do tempo, meus filmes preferidos em sua cinematografia, na esperança de que Wenders pudesse autografá-las. Fiz mais: comprei uma caneta hidrográfica bacana, para que o autógrafo ficasse bem conservado ao longo do tempo.
Deu tudo certo. Na noite anterior à palestra, houve uma recepção num restaurante, me apresentei e disse que seria uma honra conversar com ele no evento. Falamos um pouco sobre cinema (principalmente sobre ensinar cinema, já que, na época, ambos éramos também professores) e, vencendo a timidez, mostrei para ele as duas fotos impressas. Ele sorriu, pegou a minha caneta e não só autografou, como também escreveu “A long time ago…” sobre uma das fotos e desenhou asas de anjo em Yella Rottländer, a pequena atriz de Alice nas cidades. A seguir, examinou cuidadosamente a caneta, disse que era ótima e que ficaria com ela. Para meu espanto, enfiou a caneta no bolso do paletó e sorriu para mim. Um autógrafo por uma caneta. Bom negócio para mim.
Na manhã seguinte, o Juremir Machado da Silva, um dos curadores do Fronteiras de Pensamento, me telefonou. Disse que tinha convidado o Wenders a dar uma palestra para os alunos do curso de cinema da Famecos, no começo da tarde, e que ele aceitara! Sem cachê! Mas havia um pequeno problema: não tínhamos tradutor. O Juremir fala francês fluentemente, mas o Wenders, além de alemão, só fala inglês. “Tens de assumir essa tarefa, Gerbase”, disse meu orientador de doutorado e mentor acadêmico. Eu expliquei que meu inglês era bem rudimentar, mas o Juremir argumentou que não havia tempo para chamar outra pessoa. Ou eu aceitava, ou a palestra seria cancelada. Tive que encarar o desafio.