Confira todos os textos da edição #312
- Os Homens e as Coisas, por José Mário Neves
- Estranhando Paris, por Luís Augusto Fischer
- Histórias de Autógrafos: Wim Wenders em duas fotos de seus filmes, por Carlos Gerbase
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte II, por Jandiro Koch
- De Recibo de Pagamento Autônomo para Contrato por Temporada, por Márcio Chagas e Thiana Orth
- Sopram novos e bons tempos para a arbitragem brasileira, por Carlos Simon
- Lei Rouanet, dados e polarizações, por Álvaro Magalhães
- A medida das coisas humanas – Capítulo II, por Helena Terra
- A honestidade de desistir, por Carlos André Moreira
- Romance de Sandro Veronesi reinventa o tema do primeiro beijo, por Juremir Machado da Silva
I
Ainda lembro da comoção quando ouvi a frase: “o homem é a medida de todas as coisas”!
Eu era um adolescente e foi a primeira vez que me senti encantado por uma ideia. Estranho que não lembre da situação, do lugar ou da pessoa que falou – o que ficou foi a sensação da ideia reverberando, dobrando e desdobrando, por vários recantos do pensamento.
Talvez o meu encantamento tenha a ver com a tendência – um tanto obsessiva – de encontrar uma ordem para o mundo, que me fazia tentar relacionar, medir e ordenar tudo ao meu redor. Essa ideia parecia fornecer um centro organizador ou parâmetro de medida para esquadrinhar o mundo – mundo tão movente e incomensurável, que sempre me escapava.
Nem percebi o seu forte viés antropocêntrico, pois era sintônico ao meu sentimento de que nós, os humanos, éramos mesmo o centro do universo, o ápice da “criação” – era muito natural querer medir e ordenar o mundo a partir do nosso umbigo.
Só algumas décadas depois fiquei sabendo que essa era uma frase do filósofo grego Protágoras. E mais alguns anos se passaram, até eu poder criticar o antropocentrismo. Devo essa crítica à Nietzsche, que em apenas um parágrafo demonstrou o quão sem sentido é essa nossa presunção:
"Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza, congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido ".
II
A observação da sociedade contemporânea, mesmo que superficial, não apenas evidencia o equívoco da clássica fórmula de Protágoras, como também nos autoriza a invertê-la – as coisas são a medida de todos os homens! Mais do que um jogo de palavras, essa inversão é a explicitação de uma realidade impensável para um grego da antiguidade clássica: vivemos governados pelas coisas.