Porto Alegre registrou, em 2025, a menor taxa de mortalidade infantil da história. No último ano, ocorreram 7,2 óbitos durante o primeiro ano de vida a cada mil nascidos vivos na cidade. O dado mais recente indica um avanço na comparação com outros tempos – em 2024, a taxa era de 8,9 por mil.
No entanto, embora o índice represente uma conquista para a saúde pública, ele também reflete uma realidade desigual. Quando se analisa os números de acordo com raça, a taxa de mortalidade entre os filhos de mães pretas e pardas é mais que o dobro da taxa entre filhos de mães brancas em Porto Alegre.
Entre filhos de mães brancas a taxa de mortalidade cai para 5,1 a cada mil nascidos vivos. Entre filhos de mães pretas e pardas, a taxa de mortalidade é de 11,8 a cada mil. Os dados foram enviados à Matinal pelo Comitê de Investigação da Mortalidade Infantil da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). A taxa de mortalidade infantil consiste no número de crianças que foram a óbito antes de completar um ano de idade – para cada mil crianças nascidas vivas no mesmo período.
As disparidades também aparecem entre as regiões da capital. A zona sul apresenta as maiores taxas de mortalidade infantil: no distrito da Restinga, foram 15,2 óbitos a cada mil em 2025; no Extremo Sul, 12,2; e no Centro-Sul, 11,8. Outros distritos, como Humaitá, Nordeste, Leste, Partenon e Sul também ficaram com mortalidade acima da taxa geral registrada para a capital.
Pesquisadores ouvidos pela Matinal apontam as desigualdades no acesso ao atendimento em saúde como principal razão para as disparidades na mortalidade infantil.
“Historicamente, a mortalidade infantil incide mais sobre a população mais vulnerável. Tivemos melhorias nas taxas de mortalidade do Brasil ao longo dos últimos anos nos locais onde houve maior acesso ao saneamento básico e à educação”, explica Alcides Miranda, professor de Saúde Coletiva na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Outras razões para a melhoria geral nos indicadores foram os avanços em políticas voltadas à assistência pré-natal, ao parto e aos primeiros meses de vida. Esse progresso, entretanto, não alcançou todos os grupos e territórios da capital da mesma maneira.
“Quando se faz uma análise espacial do risco de mortalidade infantil no território de Porto Alegre, percebe-se que o risco não é homogêneo. Há áreas que concentram maior vulnerabilidade socioeconômica, menores taxas de educação materna, condições habitacionais limitadores e precariedade urbana”, enumera Clécio Homrich da Silva, pediatra e professor na UFRGS e no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). A dissertação de mestrado de Caroline Anele, orientada por Homrich, confirmou que um pré-natal com menos de sete consultas era fator de risco para a mortalidade infantil, que também tem relação com o nível de escolaridade materna.