Confira todos os textos da edição #321
- Entre o Mundo e Eu – Capítulo I, por Marlon Pires Ramos
- Marlon Pires Ramos, entre sorrisos e lágrimas, por Luís Augusto Fischer
- Vida na Pinguela, por Luís Augusto Fischer
- Todas as artes juntas, e mais uma, por Alfredo Fedrizzi
- Porto Alegre, 1911: A árvore e seu monumento, uma inutilidade ou algo mais?, por Arnoldo Doberstein
- As velhas e suas falas, por Fernando Seffner
- Tempo de fúria e desmedida, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte III, por Arthur de Faria
- Com rima e sem solução: ato, fato e Pilatos, por Homero Vizeu Araúho
- A vida retoma o ritmo – e as leituras que se adaptem, por Carlos André Moreira
- Cordel do Corte Raso, por Gonçalo Ferraz
Em 17 de setembro de 1911, quando da inauguração da av. Teresópolis, na então denominada praça Maria Luiza, hoje Guia Lopes, foi inaugurado também o Monumento à Árvore, quando da “maior Festa da Árvore que a história de Porto Alegre registrou” (MACEDO, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: aspectos culturais. P. Alegre, SMEC, 1982, p.37). Foi gente vindo pela linha de bonde, inaugurada em 1906, em carruagens puxadas por magníficos corcéis e em barulhentos automóveis, ainda poucos na cidade. Também tinha ciclistas, carroceiros e a própria vizinhança que, com o loteamento de 1901, ali tinha se fixado. Teve salva de 21 tiros de dinamite usado nas pedreiras da região, batalha de flores, um coro de 102 vozes entoando um hino letrado por Zeferino Brasil e musicado por Murilo Furtado, e até projeção noturna de um muito aplaudido filme.
Mas e do monumento em si, o que falar? A alternativa de ter sido uma inutilidade conta com três argumentos. Primeiro que nem aqueles que o ergueram trataram de rememorar seu sentido. Regra geral em nossa cidade, cheia destes “lugares de memória ociosos”, na expressão de Pierre Nora. Segundo que, sem vigilância e zelo, ele foi vandalizado. Algumas de suas partes, “uma esfera armilar [rodeada de anéis exteriores] encimada por um arado [...], uma espiga de trigo [...] e um cacho de uva” (Ibidem, p. 34) sumiram para sempre. Terceiro porque, do que sobreviveu por mais tempo, estava um retrato em porcelana do poeta Alarico Ribeiro, ativista da causa e grande incentivador da primeira festa da árvore, de 1904. Disso resultou que nas listas dos monumentos da municipalidade (e dos eventuais pesquisadores do assunto) o monumento passasse a ser chamado de “Obelisco a Alarico Ribeiro”.
Apesar de pouco rememorado, bastante vandalizado e até de nome trocado, o fato é que o monumento resistiu (Fig. 1). Para poder ser incluído, por exemplo, na história do processo de formação da consciência ecológica em nossa cidade (na ocasião, inclusive, diversas árvores foram plantadas no local). Para lembrar, ainda, que quando foi erguido já se tinha o que rememorar. Lembremos que Porto Alegre, no seu primeiro século, foi uma cidade de barro e pedra, sendo a arborização de seus logradouros e ruas só iniciada por volta de 1870-80 (ver Parêntese). O que continua até os dias de hoje, dotando nossa cidade de uma admirável, acolhedora e salutar cobertura vegetal.