Confira todos os textos da edição #307
- Serranos na várzea – Parte 5, por Geraldo Hasse
- Enchente e apagão no Rio Grande: crises bem diferentes entre si, por Álvaro Magalhães
- Lutz e o Pampa, por Lilly Lutzenberg
- Carta para Juliana, por trabalhadoras da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
- O pinochetismo volta para La Moneda, por Alexis Cortés
- José Amaro: dândi, flâneur e tenor pelotense, por Jandiro Koch
- O bug, as formigas e a merdificação da internet, por Beatriz Marocco
- Porto Alegre, 1900: a criação da Faculdade Livre de Direito e a presença de magistrados nordestinos como professores, por Arnoldo Doberstein
- Cicatrizes da rua, por Luís Augusto Fischer
- Rimbaud retraduzido, por Juremir Machado da Silva
- Mulher a caminho, por Helena Terra
- Diário da guerra do sono: Capítulo VII – Homem de palavra, por Cristiano
Em 10.2.1900, no prédio do Tribunal de Justiça, que, geminado ao Teatro São Pedro, conferia à Praça da Matriz uma versão provinciana do neoclassicismo imperial, lavrou-se a ata da formalização da Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre. Entre as cerca de 15 assinaturas, a do presidente do Tribunal, desembargador James de Oliveira Franco e Souza, Carlos Thompson Flores, Germano Hasslocher e Arthur Pinto da Rocha.
Três meses depois, em 03.5.1900, no salão da Inspetoria Geral da Instrução Pública, e com a presença de Castilhos, Borges, Montaury e cônsules do Uruguai, Itália e Espanha (AXT, Gunter. A Faculdade de Direito de Porto Alegre: memória, ensino e política. P. Alegre, Ed. Paiol, 2014, p. 14) solenizava-se a fundação da Faculdade. Seu primeiro diretor foi Carlos Thompson Flores, de 1900 a 1904, sucedido por Manoel André da Rocha, de 1904 a 1936, e suas primeiras instalações foram em duas salas do prédio do antigo Liceu Imperial (Duque de Caxias, esquina Mal. Floriano) onde já funcionavam outras faculdades, a Biblioteca Pública e a Inspetoria da Instrução Pública (Fig. 1).
Com André da Rocha na direção, ele mesmo um potiguar aqui chegado em 1890, as portas da Faculdade abriram-se ainda mais para outros magistrados nordestinos. Mas por que tantos nordestinos e qual o papel que por aqui exerceram? A primeira resposta vem do fato que, ainda no Império (quando começaram a vir), a Faculdade de Recife, junto com a de S. Paulo, era uma das únicas no país. Os que por lá estudavam, e aqueles que por aqui faziam o mesmo, quase todos eram meio Tobias Barreto, ansiosos de atualização, de emancipar-se do pensamento teológico e apreciadores do evolucionismo. E que não se desconfortavam (como hoje em dia) com os “problemáticos” corolários deste evolucionismo, como o desenvolvimento desigual dos povos (o eurocentrismo), e até da desigualdade das raças. Sobre o papel da maioria destes magistrados nordestinos vindos para o RS, as avaliações podem se alternar entre vê-los como a serviço dos interesses de quem os indicava, ou das grandes famílias às quais pertenciam aquelas com as quais se casaram (a velha “tese” do “puxadinho” das Casas Grandes) ou, então, considerá-los, junto com seus pares, um reduto de cultura às letras, civilidade e respeito ao contrato social. Apesar dos reparos, justificados, ficamos com a segunda hipótese.