Confira todos os textos da edição #313
Nem toda mistura é boa, por José Damico
Geração Z não gosta de carnaval?, por Juremir Machado da Silva
“Ó, abre alas, que eu quero passar”: Dyrson Cattani, por Jandiro Koch
Estória enviesada, por Beatriz Marocco
Entre casa e marido, por Fernando Seffner
Histórias de Autógrafos: Michael Ruse em Levando Darwin a sério, por Carlos Gerbase
Pedaço de uma vida íntegra, por Luís Augusto Fischer
O “avô” dos estudos do livro e da edição no Brasil, por Ana Elisa Ribeiro
A medida das coisas humanas: Capítulo III, por Helena Terra
1903: A morte de Barros Cassal, memória e esquecimentos, por Arnoldo Doberstein
Em 2020, Denise Bottmann, uma das mais respeitadas tradutoras brasileiras, me fez chegar uma dica: Laurence Hallewell, então com 91 anos, precisava ser entrevistado. Segundo ela, o autor de O Livro no Brasil: Sua História merecia uma boa oportunidade de contar pormenorizadamente sobre seus estudos e sua vida. Até ali, havia apenas uma breve entrevista dele no país e o “monumento” Hallewell merecia ser entrevistado por pesquisadoras que conseguissem aprofundar e alongar seus relatos. Topei imediatamente, embora a realização disso fosse demorar alguns anos.
Aí veio pandemia... Em maio de 2021, o próprio Hallewell entrou em contato por e-mail colocando-se à disposição para uma conversa. Denise, no entanto, já me alertara sobre a possível lentidão nas respostas do nosso autor inglês, estudioso do Brasil, e me animou dizendo que as trocas poderiam ser bilíngues: ele em inglês, eu em português; mas ele foi mais generoso do que isso.
Naquele dia de maio, respondi prontamente e ele me respondeu três ou quatro horas depois. Fiz uma graça, elogiei seu trabalho realmente monumental, agradeci e perguntei se poderia chamá-lo por “você”. Hallewell foi simpático, em sua resposta em português quase perfeito, e começou explicando o próprio nome de batismo (manterei o texto original):
Obrigado pelo e-mail. Toparia, sim. Minha padrinha de bautismo, sendo forte feminista, querria chamar-me de Laura Florence (nomes de duas lutadoras para o sufrágio feminino), mas cheguei neste Val de lágrimas com sexo errado e por isso mudou ela tal nomeação para Laurence. Uma bisavô, sendo muito pobre, mudou o nome dela de Mary Hallawell para Martha Hallewell. Como piada por ser isto o da esposa do homem mais rico e poderoso do município seu. A minha famíla me chama de "granddad", mais fora da casa isso pode confundir, havendo tantas crianças gritando "granddad" para conseguir a atenção de tantos outros avós.
Quem conheceu Laurence Hallewell atribui a ele um humor permanente e peculiar. Entendi que a anedota era sua forma de simpatia naquelas mensagens que trocamos, a espaços largos, por mais três anos. Continuou Hallewell, no mesmo e-mail:
Durante muitos anos eu chamava qualquer brasileiro ou brasileira de você até o dia no qual visitei o Rubem Borba Alves de Morais, ao ter ele 80 anos e eu apenas 50, e ele respondeu por falar dos jovens mau educados que faltam respeito para os mais velhos. Mas se você aceitar um você de mim, ficarei contento de lhe responder do mesmo jeito. Abraço do avó Laurence Hallewell. PS: Gentil "você" de mim, então me alegraria lhe responder com "você".
Não era que eu o devesse chamar de “avô”, mas ficamos acordados sobre o “você”, e assim passamos a nos tratar, ele aos mais de 90 anos, eu com menos de 50 anos, e nem por isso mal-educada.
Em mais um dia de mensagens, combinamos que eu enviaria perguntas às quais ele procuraria responder rapidamente e com dedicação. Hallewell se disse imperito “nas coisas eletrônicas” e que talvez fosse melhor fazermos nossa troca por Correios (!), no que concordamos que seria demasiadamente difícil e lento. No entanto, por muitas razões, só voltei a contatá-lo para a entrevista, de fato, em 2024, muito depois do que os Correios poderiam prover. Só aí eu tinha uma ideia menos vaga do que fazer com uma entrevista do autor da mais monumental obra sobre o livro no Brasil, e encontrara uma parceira ideal para a empreitada: a professora e pesquisadora de Produção Editorial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Isabel Travancas.