Confira todos os textos da edição #314
- A alegre democracia de distinções interseccionais: viva o carnaval!, por Jairo Ferreira
- Quando o carnaval passar, por Juremir Machado da Silva
- Ele não poderia ter deixado de ir, por Paulo Coimbra Guedes
- O “le-lo-lai” do Bad Bunny é o nosso sapucay, por Clarissa Ferreira
- O manifesto de um espetáculo, por Chris Cidade Dias
- Natalia Ginzburg: uma leitura sobre a experiência, por Caroline Lima
- Apolinário e Esmê, um romance coletivo, por Jorge Benitz
- Histórias de Autógrafos: Michel Houellebecq em “Submissão”, por Carlos Gerbase
- Camborianga, por Álvaro Magalhães
- A medida das coisas humanas: Capítulo IV, por Helena Terra
Quero mesmo é falar do carnaval. Olhar de estrangeiro, um gaúcho em Salvador.
Carnaval é uma das experiências culturais mais profundas do avanço da sociabilidade no Brasil. Como todo objeto social trazido da Europa, pode ser lugar de usos, apropriações, disputas e redirecionamentos. Nascido no berço ítalo-católico, chegou ao Brasil como experiência de elite.
Salvador é uma evidência forte disso. Em meados do século passado, carnaval era sinônimo de exibição das elites locais, comportadas, desfilando no “centro” em carrões da época, com os negros fazendo a festa na “periferia”. Hoje, Salvador tem vários circuitos, alguns famosos (Ondina-Barra, Campo Grande, Pelourinho – os mais famosos), que reúnem, somados, centenas de milhares, talvez milhões em alguns dias, com certeza vários milhões na semana do carnaval (mais de 8 milhões na folia , conforme dados do Governo da Bahia), sem falar nas “preliminares” que começam semanas antes, em que parte da “periferia” está dentro, mesmo que em distintas formas.
É um espaço universal e democrático? Sim, uma espécie de democracia de distinções interseccionadas (há distinções de espaços compartilhados onde se observam diferenças: negros-não negros, pobres e ricos, LGBTs e algo como Filhos de Gandhi – só homens cis; estar dentro da corda com abadás ou fora da corda; na pipoca ou no palco; no palco ou na plateia – quem é plateia quando o show é o de massas dançando? – incluindo o carnaval-festa com fortes cores religiosas dos rituais que chegam dos terreiros – não só Brown em seus rituais de abertura).