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A alegre democracia de distinções interseccionais: viva o carnaval!

Parêntese #314

A alegre democracia de distinções interseccionais: viva o carnaval!
Saída do Afoxé Filhos de Gandhy, no Pelourinho, no carnaval de 2026. Foto: Wuiga Rubini / Governo da Bahia

Quero mesmo é falar do carnaval. Olhar de estrangeiro, um gaúcho em Salvador. 

Carnaval é uma das experiências culturais mais profundas do avanço da sociabilidade no Brasil. Como todo objeto social trazido da Europa, pode ser lugar de usos, apropriações, disputas e redirecionamentos. Nascido no berço ítalo-católico, chegou ao Brasil como experiência de elite. 

Salvador é uma evidência forte disso. Em meados do século passado, carnaval era sinônimo de exibição das elites locais, comportadas, desfilando no “centro” em carrões da época, com os negros fazendo a festa na “periferia”. Hoje, Salvador tem vários circuitos, alguns famosos (Ondina-Barra, Campo Grande, Pelourinho – os mais famosos), que reúnem, somados, centenas de milhares, talvez milhões em alguns dias, com certeza vários milhões na semana do carnaval (mais de 8  milhões na folia , conforme dados do Governo da Bahia), sem falar nas “preliminares” que começam semanas antes, em que parte da “periferia” está dentro, mesmo que em distintas formas. 

É um espaço universal e democrático? Sim, uma espécie de democracia de distinções interseccionadas (há distinções de espaços compartilhados onde se observam diferenças:  negros-não negros, pobres e ricos, LGBTs e algo como Filhos de Gandhi – só homens cis; estar dentro da corda com abadás ou fora da corda; na pipoca ou no palco; no palco ou na plateia – quem é plateia quando o show é o de massas dançando? – incluindo o carnaval-festa com fortes cores religiosas dos rituais que chegam dos terreiros – não só Brown em seus rituais de abertura).