Confira todos os textos da edição #312
- Os Homens e as Coisas, por José Mário Neves
- Estranhando Paris, por Luís Augusto Fischer
- Histórias de Autógrafos: Wim Wenders em duas fotos de seus filmes, por Carlos Gerbase
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte II, por Jandiro Koch
- De Recibo de Pagamento Autônomo para Contrato por Temporada, por Márcio Chagas e Thiana Orth
- Sopram novos e bons tempos para a arbitragem brasileira, por Carlos Simon
- Lei Rouanet, dados e polarizações, por Álvaro Magalhães
- A medida das coisas humanas – Capítulo II, por Helena Terra
- A honestidade de desistir, por Carlos André Moreira
- Romance de Sandro Veronesi reinventa o tema do primeiro beijo, por Juremir Machado da Silva
Comecei estes textos (vocês podem ler minha “carta de intenções” para a primeira coluna aqui), como forma de dar voz a coisas que não cabem muitas vezes em resenhas estruturadas de modo mais tradicional e de reconhecer alguma subjetividade que também é inescapável em qualquer texto crítico. Mas ainda tateio em busca do ponto e do tom ideais. Falei muito até agora em leituras, impressões, começos promissores, livros que marcaram, mas disse pouco sobre desistências, esse aspecto também fundamental da experiência de leitura.
Há livros dos quais desistimos, e a análise dos motivos dessa desistência pode dizer algo sobre o livro e sobre nós mesmos como leitores. Não temos, claro, a autoridade ou o direito de “resenhar” uma obra que não concluímos, mas pode ser interessante investigar o que nos levou a desistir dela, e por isso decidi fazer isso em um dos tópicos da coluna deste mês.
Tenho tentado, também, dar voz a livros e autores, principalmente locais, que sei que não teriam repercussão midiática avassaladora. Por isso, trouxe também nesta coluna comentários sobre dois livros de colegas escritores que li no último mês. Vamos a eles.
Prosa poética e desistências
Meu primeiro contato como leitor com a prosa poética se deu com os Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire, em uma edição da Civilização Brasileira com tradução de Aurélio Buarque de Holanda que peguei emprestado na Biblioteca Pública de São Gabriel em algum momento antes de 1991, embora eu não me lembre do ano exato. Não seria exagero, então, dizer que comecei pelo topo, e daí para diante houve mais descidas do que subidas. Minha especialização acadêmica é em literatura portuguesa, e boa parte da poética lusitana da metade do século XX em diante trabalha com esse tipo de tensão entre gêneros e formas, prosa e poesia, e daí saíram grandes coisas, de Lobo Antunes, Teolinda Gersão até o hoje muito conhecido Valter Hugo Mãe.
Mas o fenômeno das redes sociais e seus poemas “cruéis demais para serem lidos rapidamente” transformou a prosa poética em um inço que preda qualquer manifestação online – inspirando, no processo, muitos autores iniciantes, num estrago que devemos levar uma geração para purgar, se conseguirmos. Assim, chego a esta segunda quadra do século XXI um pouco cansado desse tipo de manifestação, o que me fez começar e logo depois abandonar o “romance-poema” Mobiliário para uma Fuga em março (Dublinense), de Marana Borges.
Comprei o livro na Feira, na banca da editora, atraído pela poética sugestiva de seu título, então é óbvio que, em parte, procurei o que encontrei. A obra é narrada de modo fragmentário pelo ponto de vista de uma jovem que volta à casa abandonada em que cresceu, na qual cada objeto é o gatilho para a reconstrução da memória de uma infância cheia de carências e conflitos com a figura da mãe: o portão arruinado, caixas cheias de objetos espalhadas pelos cômodos, o piso em mosaico. A casa é em São Paulo, a família tem dinheiro para empregadas e costureiras, a menina aprendeu piano na infância, então isso também não me despertou muito afeto pela obra (se tem uma coisa que minha consciência proletária anda mais cansada do que prosa poética é de drama de gente rica, mesmo que falida).
Há momentos em que a prosa-poética da narrativa é um corte lancinante de um único poema curto numa página. Impactante e eficiente. Às vezes, no entanto, o texto se expande em imagens surrealistas de força questionável: já nas primeiras páginas topamos com coisas como “Presos os dedos no meio-fio de uma emboscada, eu canto. Com a fasquia que me resta de uma madeira velha, a cancela jamais aberta. Mas a voz não chega. Galo sem crista. Cedo amputaram-lhe o grito. Não se enreda em teia tênue, entre todos, fazendo coro”.
Pra mim não bateu. Lutei por um tempo, mas larguei ao perceber que havia lido menos de 50 páginas das inacreditáveis quase 400. Mas, me informa a edição, o livro ganhou o Prêmio Minas Gerais de Literatura (não dizia quando, mas pesquisando, descobri que foi em 2017). Então, estou aberto à possibilidade ser eu que não entendi ou não comprei a proposta por não estar em um momento pessoal em que possa dedicar esse tipo de atenção e esse tipo de livro. Talvez eu deva dar outra chance em outro momento.
Emoção e terror
Assim como os ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos foram nomeados na imprensa americana 9/11, a data escrita à moda inglesa, com o mês primeiro e o dia depois, V-13 costuma ser a sigla com a qual a França relembra atentados ocorridos no dia 13 de novembro de 2015, uma sexta-feira (“vendredi”, daí o V-13). Foram três ataques coordenados. Um deles, no Stade de France, em Saint-Denis, onde ocorria um jogo entre as seleções da Alemanha e da França. Outro, numa região boêmia cheia de bares e restaurantes no 10º arrondissement, na margem direita do Sena. Um terceiro na famosa casa de shows Bataclan, no Boulevard Voltaire, 11º arrondissement – e apesar dessas três frentes, o atentado se tornou internacionalmente conhecido como o “massacre do Bataclan”, uma vez que lá se concentraram o maior número de vítimas e, ao contrário da aleatoriedade agressiva de simplesmente atirar a esmo, os terroristas invadiram o lugar e fuzilaram sobreviventes da primeira onda de tiros.