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Cai o pano

Parêntese #304

Confira todos os textos da edição #304

Em meados de outubro último, frequentei uma sequência de quatro aulas que o crítico e teórico da literatura Franco Moretti proferiu na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Já que a obra (recente) dele é o tema da minha pesquisa de pós-doutorado naquela mesma instituição, a oportunidade veio muito a calhar — como o pessoal de Letras bem sabe, é muito raro podermos ouvir ao vivo nossos “objetos de estudo”, até porque em sua maioria eles não estão mais entre nós. Lá fui, e aqui trago um relato em primeira mão sobre o tema das palestras, que é o próximo livro que Moretti publicará, ano que vem, após muitos anos de gestação. Próximo e último, segundo o próprio: em entrevista recente, declarou que esta será sua obra monográfica final. O máximo que pensa em dar a público depois são, talvez, coletâneas de ensaios mais despretensiosos (isto é, sem uma grande massa de pesquisa por trás, como é o seu costume) ou de textos sobre a obra de outros intelectuais. Portanto, esta é a retirada de Moretti dos palcos da crítica literária mais exigente, aquela que propõe teses fortes e novas em vez de apenas comunicar experiências de leitura. E aquilo a que assisti foi de fato a última cena do último ato. Segundo o autor, o evento na USP era o derradeiro de uma longa rodada de falas e apresentações que ele andou fazendo sobre a obra por vir. 

Falei em palco, cena, ato, e não foi por acaso. Seu novo livro é sobre... teatro. Pode surpreender muito que um estudioso que dedicou a vida toda ao romance escreva um livro, e o último da sua carreira, sobre o drama trágico. Mas o ecletismo, se informado e competente, bem-entendido, é uma virtude, e não só algumas das influências formativas do caminho crítico de Moretti (Georg Lukács, Péter Szondi, Walter Benjamin) escreveram grandes tratados sobre teatro, como também seu interesse específico pela evolução dos gêneros literários, que remonta no mínimo a fins da década de 90, necessariamente cruza caminhos com a teoria do drama, que por muitos séculos foi o rei absoluto do prestígio em literatura até o romance dar seu golpe de Estado. E quem investigar mais a fundo a sua obra encontrará ótimos ensaios sobre tragédia já desde o início da sua carreira, como, por exemplo, O grande eclipse, de 1979, recolhido em seu primeiro livro de verdade (Signos e estilos da modernidade); toda a Primeira Parte, sobre o Fausto II de Goethe, de Opere mondo, de 1994 (sem tradução em português; em inglês, saiu como Modern Epic); o inovador Network Theory, Plot Analysis, presente em Distant Reading (2013, sem tradução para português); e o cáustico exercício de meta – e autocrítica que é Simulazioni, forme, storia (em Falso movimento, de 2022, disponível no original italiano, em espanhol e em alemão).

Dito isso, ao ataque. O livro no prelo se chama Bandiera nera. Forma tragica e guerra civile (Bandeira negra. Forma trágica e guerra civil), título retirado de um curioso costume relatado no texto de quarta capa: “Nos tempos de Shakespeare, no telhado do Globe Theater assomava uma torrezinha com um mastro em cima. Quando se dava uma comédia, era içada uma bandeira branca; um drama histórico, bandeira vermelha; uma tragédia, bandeira negra”. O livro, composto de uma introdução, seis capítulos centrais e um capítulo extra de epílogo, busca aproximar os atributos formais da tragédia ao execrável fenômeno das guerras internas. Naturalmente, não tivemos acesso ao texto, e tampouco a uma exposição integral do livro (abordou-se quatro capítulos e meio, digamos), mas uma síntese das maiores ideias apresentadas é possível.