Confira todos os textos da edição #324
- Milton Santos, geógrafo, filósofo, intelectual, negro, centenário, inspirador, por Adriana Dorfman
- Espaços de resistências: como a força coletiva impõem novas estratégias para o debate do espaço do cidadão de Milton Santos, por Claudia Pires
- Um curral chamado senado, por Juremir Machado da Silva
- Diversidade cultural e política de cotas – Parte I, por Álvaro Magalhães
- O rock gaúcho – Parte VI – Ainda os dos 1960: Mutuca, Chaminé, por Arthur de Faria
- A Bienal de Veneza de Koyo Kouoh: como traduzir In Minor Keys?, por Samantha Buglione
- O que vem depois do 13? O 17!, por Fernando Seffner
- Crônicas animais – O causo do colhudo que “morreu de brabo”, por Marília Kosby
- Hifanações a partir de Patrícia Portela, por Raphaela Flores
- Entre o mundo e eu – Capítulo IV, por Marlon Pires Ramos
- Eduardo Devens: “Mas é um homem de cuecas?”, por Jandiro Koch
Os homens que vieram pela manhã bem poderiam ser confundidos com nossos alunos. Os mais velhos, com nossos pais, tios. Não sabíamos bem o que esperar, eu nunca havia trabalhado com esse público. Mesmo uma das psicólogas da equipe, Caroline Soares, que tem experiência com a população prisional da cidade, não tinha ainda trabalhado com grupos formados a partir de uma infração específica: violência contra a mulher, nos termos da Lei Maria da Penha. Nos dias que antecederam o primeiro encontro promovido pela ação de extensão Desdomar - desmontando o patriarcado a cavalo, enquanto coordenadora da iniciativa, me pesava imaginar como seria o encontro entre o campus da universidade e os agressores, nenhum deles privado de liberdade pela Justiça. Como seriam esses homens? Rapidamente estigmatizáveis, como os meliantes das séries Chaves e Chapolim ou como os célebres vilões do Batman? Mesmo sabendo que não, que os estudos e as nossas vivências mostram que a violência contra as mulheres é praticada por homens “comuns”, algo em mim queria acreditar que era possível criar uma excepcionalidade.
Essa ilusão já era para ter sido quebrada em dezembro de 2025, na primeira conversa que tivemos com Nildo Inácio, magistrado da 2ª Vara Criminal de Uruguaiana, que acolheu nossa proposta de ação como uma das medidas obrigatórias a serem cumpridas por infratores da Lei Maria da Penha, no município. Segundo Inácio, dos cerca de 5 mil casos sob a alçada da 2ª Vara Criminal, aproximadamente 2 mil e setecentos correspondiam a violência doméstica e contra as mulheres. Mais da metade. Pouco factível, portanto, pensarmos em um público composto por quase três milhares de Coringas, Pinguins, Quase-Nadas, Tripas Secas – embora muitos dos crimes de feminicídio e outras violências de gênero perpetradas por homens “comuns” sejam cometidos com requintes cinematográficos de atrocidade.
A referida ação de extensão tem como base metodológica as atividades desenvolvidas no projeto de extensão desdomar: poéticas de liberdade com a manada equina da Unipampa (já trazido aqui, nas Crônicas animais) e fundamentação teórico-etnográfica no projeto de pesquisa Medicina dos cavalos (UNIPAMPA/FAPERGS). Recebemos, quinzenalmente, durante três meses, dois grupos de homens triados pela equipe do juiz Inácio. As atividades vivenciadas fomentam reflexões sobre masculinidades, tradição, autoridade, subjugação, vínculo afetivo e expressão emocional, favorecendo a revisão crítica e íntima de práticas que historicamente sustentam modelos misóginos. Isso tudo, a partir de dinâmicas de conexão com nossas parceiras equinas Única, Tordilha, Rosilha, Boneca, Aurora, Colorada e o parceiro Surdo.