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Eduardo Devens: “Mas é um homem de cuecas?”

Parêntese #324

Eduardo Devens: “Mas é um homem de cuecas?”
Imagem: Acervo de Eduardo Devens

Há pouco tempo, Eduardo Devens expôs, no Paço Municipal, em Porto Alegre, com a curadoria de André Venzon. Errei a data da mostra, cheguei durante a montagem, momento em que falei rapidamente com ambos, que estavam ocupados tentando selecionar quais peças iriam para a sala que lhes era reservada. Vindo das outras dependências, eu acabara de ver algumas obras de Leonardo Câmara Canto e de Ernesto Frederico Scheffel, dois artistas plásticos gaúchos que retrataram o homoerotismo em considerável quantitativo, sobre os quais já publiquei textos na Parêntese. 

Na sala para a mostra “Transfigurações”, assinada por Devens, alguma coisa pairava no ar. Eu conhecia, por fotografias, a arte arrojada do artista. Mas, mesmo eu, depois de tanto puritanismo nesse país, fico com dúvidas sobre a aceitação, nos espaços de arte ligados a órgãos públicos, de corpos desnudos. Como já tinha visto Canto e Scheffel, ao lado, em nus escancarados, pensei que a capital gaúcha estava, aos poucos, saindo do ranço da experiência patética do QueerMuseu

Alguns dias depois, voltei ao Paço para ver a exposição pronta. As obras, de firmeza técnica, certamente não eram as mais impactantes do acervo do artista. Perguntei a Devens se a escolha foi guiada por alguma (auto)censura, ao que me respondeu negativamente. Argumentou que não trouxe o material mais “enfático” por uma falha de comunicação entre ele e o curador. O que é certo é que, neste bate-papo que mantive com o artista, nada ficou de fora. 


Jandiro Adriano Koch: Olá, Eduardo. Tudo certo? Quando nos encontramos, no Paço Municipal, você mencionou ter nascido em Piratini e que migrou, muito cedo, para Pelotas. E que foi criado pelas avós? De que lado? Apresenta um pouco dessa trajetória familiar.

Eduardo Devens: Eu nasci em Piratini/RS, em 1971. Meus pais eram retratistas (fotógrafos de retratos) e professores. Então meus primeiros anos foram envoltos nas fotografias e junto ao quarto escuro do laboratório de revelação no fundo de nossa casa. Sempre conto que eu tenho a fotografia no sangue, pois cortei o dedo em uma lata de filme. Eles se separaram quando eu tinha 4,5 anos e precisei mudar com minha mãe para Pelotas. Naquele tempo, as mulheres desquitadas passavam a ter uma má fama. Viemos minha mãe e eu. E minha babá Isabel, fugida da família após uma briga com seu pai, veio sem cobrar nada de minha mãe, pois sabia que ela não teria mais como pagar. Moramos os três em um quarto de uma pensão e minha babá cuidou de mim no primeiro ano, por comida e onde ficar, até conseguir um trabalho de verdade. Ela gostava de desenhar e pintar em tecido e foi a primeira pessoa a me mostrar que era possível criar. Quando minha babá foi embora, meus avós maternos, que eram agricultores, venderam o pequeno pedaço de terra que tinham, no interior de Piratini, para se mudarem para Pelotas e para ajudarem minha mãe a me criar. Minha avó passou a ser costureira e meu avô foi trabalhar como servente de pedreiro para tentar se aposentar. 

Imagem: Acervo de Eduardo Devens

J: Você lembra em que momento percebeu que tinha inclinação para artes plásticas?

E: Acho que minha resposta pode parecer meio pedante, mas eu sempre “me senti” artista. Comecei a desenhar vendo Isabel em seus momentos de criação. Quando meus avós vieram e fomos para uma casa em uma vila de Pelotas, antes dos seis anos, passei a criar meus brinquedos e instalações infantis sempre precedidos de desenhos esquemáticos para “projetar” o que iria construir. Esse hábito, tenho até hoje. Coletava todo o tipo de material para meus projetos, os mais variados tipos. Desenhava muito e gostava bastante dos retratos. Pintava pequenos quadros, com tinta guache, em tampinhas de caixas de madeira de goiabada. E já adorava as caixas e o isopor que aproveitava de materiais que meu avô trazia das obras nas quais trabalhava. Eu certamente fui uma criança muito esquisita. Adorava ler enciclopédias e fazer planos. Os adultos sempre me perguntavam qual profissão eu escolheria quando crescesse e eu realmente acreditava que precisava saber… já que tantos me perguntavam. Então, perto dos dez anos, tive um tipo de maratona reflexiva sobre minha futura profissão. Depois de duas semanas pensando, cheguei à conclusão de que faria “Belas Artes”. Anunciei para minha mãe, triunfante em ter definido o que seria quando crescesse. Lembro que minha mãe me olhou com um olhar de pena e disse algo do tipo: “Meu filho, realmente é um curso lindo, a mãe também pensou em cursar (era formada em Letras/português-inglês-latim), mas você vai virar professor que nem eu e vai morrer de fome. Você é uma criança com tantos interesses, certamente vai descobrir algo que possa te dar o provento e, depois, poderá fazer quantas faculdades quiser”. Foi um baque e tanto, mas achei plausível e, depois de estar estabilizado financeiramente, iniciei o bacharelado, em 2016, com 45 anos. Fiz oito créditos por semestre e cursei tudo o que a faculdade possibilitou. Porém, mesmo trabalhando em outras áreas, sempre mantive minha produção artística mais voltada para o desenho e a fotografia. Fui fortalecer uma pesquisa artística fundamentada depois de entrar para a faculdade.