Paris, 20 de outubro de 2026
Meu caro amigo, me perdoe se não escrevi antes. Mas como agora a coisa aí tá feia, me sinto no dever de falar com você. Domingo, dia 25 de outubro, você decide o nome do próximo presidente do Brasil e o futuro do país.
Daqui da França, o Brasil está no centro de todas as atenções. À direita como à esquerda, os comentários são os mesmos. Para muita gente, o Brasil virou uma espécie de laboratório do caos político e da radicalização autoritária.
Entendo todas as decepções, todas as insatisfações, até a raiva que se expressou nas urnas no primeiro turno. Mas a solução para o Brasil "mudar", ir para frente e crescer não pode ser voltar à era Bolsonaro, com o clã e o projeto que eles carregam. Como você poderia pensar, com sinceridade, que essa seria a solução? Visto da França, o que está em jogo é a democracia; um Brasil democrático, estável e digno.
Para responder aos seus desafios e alcançar o patamar dos países mais ricos do mundo, o Brasil precisa de educação, universidades, ciência, tecnologia, infraestruturas, saúde, proteger sua natureza gigante mas frágil, assegurar a matéria-prima do seu solo, como suas terras raras. São as condições de um Brasil forte, independente e soberano. O salto que o Brasil precisa dar é para o alto, e não para baixo ou para trás. O Bolsonaro não vai investir nisso tudo, você sabe. E como ele faria, aliás, com o "tesouraço" gigantesco e radical que promete nas despesas públicas? Olhe o resultado da política do Milei na Argentina, é o espelho do futuro do Brasil se o bolsonarismo vencer domingo.
O bolsonarismo representa a forma moderna, brasileira, do novo extremismo de direita. O bolsonarismo é um iliberalismo. Veste as roupas do liberalismo político, mas tem o corpo e a alma do autoritarismo. É o que os Estados Unidos estão se tornando. Passar essa fronteira é uma "báscula", como dizemos na França. Não seria alternância, mas retrocesso.
Nem precisa de golpe militar. O método é mais insidioso, mais perverso. Basta não aplicar as regras do Estado de Direito e manter pressão alta e constante na sociedade inteira. O bolsonarismo precisa de tensão. O bolsonarismo precisa de confusão. O bolsonarismo precisa de violência. O bolsonarismo precisa de agressividade. O bolsonarismo precisa de ódio. O bolsonarismo precisa de radicalidade. Se você está cansado com essa polarização, não deveria deixar o bolsonarismo vencer. O seu voto nesse caso não seria pro Lula: seria contra o bolsonarismo.
Tudo isso não exonera em nada a crítica ao Lula, ao PT, ao governo. Mas se alguma forma de crítica e de espírito crítico pode sobreviver na vida política brasileira, não será nunca com o bolsonarismo no poder. Isso, você sabe porque já viu. E "não vale a pena ver de novo…"
Sei o esforço que estou lhe pedindo, porque eu já fiz pessoalmente esse gesto. Em 2002, meu candidato, o socialista Lionel Jospin, foi eliminado no primeiro turno da eleição presidencial francesa. Foi um terremoto político na época que traumatizou o país. No segundo turno, votei com 82% dos franceses em Jacques Chirac, presidente e candidato de direita, votamos massivamente no Chirac para impedir e barrar Jean-Marie Le Pen, líder e candidato da extrema direita francesa, fundador do partido Frente Nacional (FN).
Vivi aquilo na pele. E até hoje não me arrependo desse voto de impedimento, mais de 20 anos depois. Era o gesto que tinha que ser feito. Hoje, a líder da extrema direita na França é a Marine Le Pen, a filha de Jean-Marie. A extrema direita daqui também é um clã familiar. Curioso esse nepotismo político da extrema direita, não é? Já meditou sobre isso?
Aliás, faz tempo que Marine Le Pen não quer chegar perto da família Bolsonaro. Para Le Pen e seu partido, Bolsonaro é tóxico. É queima filme aqui por causa da radicalidade absurda que representam – até para os eleitores franceses da extrema direita. Isso dá a medida da radicalidade do bolsonarismo e do medo que provoca. Se nem a extrema direita francesa quer ser associada ao bolsonarismo, por que você o deixaria tomar conta do Brasil?
O bolsonarismo faz parte de um projeto global pilotado por Trump. Eles montaram uma "Internacional de extrema direita". Por isso tantas ingerências vindas do norte do continente nas eleições brasileiras. A estratégia deles é derrubar dominó por dominó os países da América Latina como da Europa. A eleição presidencial francesa será em abril e maio de 2027, e a Marine Le Pen aparece disparada nas pesquisas, com cerca de 35% no primeiro turno. Nunca esteve tão perto do poder. Se Bolsonaro vencer no domingo, será muita lenha pro fogo dela na França. O futuro da França e o do Brasil estão ligados, devem resistir juntos contra essa onda global da nova extrema direita populista iliberal.
Você que é de direita, liberal ou conservador, entenda que se Bolsonaro vencer, a direita que você gosta e tem saudade não voltará mais. O bolsonarismo vai devorar e engolir a direita todinha, como já fez no Congresso e no Senado, como fez também Trump com o Partido Republicano nos Estados Unidos. Nessa situação, a melhor carta para reorganizar uma direita digna no Brasil, aquela do Fernando Henrique Cardoso, do Serra, do Alckmin, até do Centrão, ancorada na democracia, no Estado de Direito, é a carta Lula. Sei que é paradoxal, mas é a verdade política do momento. Seja então estratégico e malicioso: é um voto de sinuca, um voto de rebote. Como dizemos na França, "no primeiro turno, a gente escolhe, no segundo, a gente elimina."
Pense nos seus filhos, na sua filha. Que Brasil você quer deixar para eles? Está na hora de ser malandro, malandro brasileiro. Esqueça o Lula, esqueça o PT. Não são eles que estão em jogo, mas o Brasil verde e amarelo que você ama, o Brasil de todas as cores da esperança. E se tiver que votar tapando o nariz, tape. Ninguém vê, ninguém julga.
Confio em você, meu caro amigo. Como dizia Léon Blum, chefe do governo da Frente Popular na França em 1936: "acredito porque espero".
Um grande abraço, e até domingo para que amanhã o Brasil continue sendo o Brasil.
P.S. Mande um beijo para os filhos, principalmente sua filha. Ela merece crescer num país onde seja respeitada. Avise os outros familiares e amigos indecisos. Faça a sua listinha de cinco, dez pessoas e ligue para conversar e convencer elas também.