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O que vem depois do 13? O 17!

Parêntese #324

A junção, em uma mesma sala de aula, de alunos e alunas jovens com alunos e alunas mais velhos, por vezes bastante idosos, gera diálogos dos mais preciosos. É o que verifico ao fazer meu trabalho de pesquisa, a etnografia de cenas da cultura escolar. A Educação de Jovens e Adultos, a EJA, agrega jovens que recentemente perderam a seriação escolar, por vezes praticamente expulsos do ensino diurno para o noturno. Ali convivem ao lado de homens e mulheres que perderam a seriação na idade certa muitos anos atrás e retornaram à escola. Todos e todas numa tentativa de melhoria profissional, ou pelo gosto do estudo e da sociabilidade. Ali se escutam histórias de tipos inesquecíveis.

Uma delas se passa em noite fria de inverno, em escola estadual no extremo da zona norte de Porto Alegre, situada no centro de enorme conjunto residencial. A turma tem 18 estudantes. O núcleo mais visível são seis senhoras, que se sentam juntas, têm o material escolar bem-disposto em cima da carteira, são colaborativas com a professora, e exercem uma saudável pressão sobre o alunado mais jovem, particularmente em questões disciplinares e de manutenção do silêncio na sala. É uma classe de EJA da série final do Ensino Fundamental. Acabo de assistir dois períodos de matemática, onde se resolveram equações com duas ou três variáveis. Bateu o sinal, é hora do recreio.

As seis senhoras, em minutos, estendem uma toalha sobre duas mesas. Ali dispõem duas térmicas de chá e café, biscoitos e alguns sanduíches. Convidam quem quiser lanchar. Insistem comigo para ficar. Aceito com gosto, e peço que me digam quando pararam de estudar, por que pararam e por que voltaram a estudar. Uma das senhoras dispara: “eu e meu marido estamos aposentados, mas ele é muito parado, é só televisão e futebol, toda noite ali sentado, aqui eu me sinto bem melhor com as minhas vizinhas”. Um senhor, certamente a pessoa mais idosa da sala, que caminha com alguma dificuldade, explica que é viúvo, aposentado e mora bem perto da escola. Descobriu que havia como voltar a estudar por conta de um cartaz que colocaram no portão do colégio. E arremata dizendo: “Se fico em casa, fico sozinho e deprimido, incomodando a minha filha, que mora na casa ao lado, por conta da janta. Agora venho aqui, toda noite tem refeição antes da aula começar, gosto da turma, das conversas. Vou me formar no Ensino Fundamental este ano, mas vou continuar vindo, já me acertei com a diretora”.