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✉️ Por que você não diz o que quer dizer?

Tudo É Gênero #56

✉️ Por que você não diz o que quer dizer?
Ato em apoio a Lula na Esplanada dos Ministérios em Brasília | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Por que você não diz o que quer dizer?

“Você não gostaria de ter um filho gay, certo?” 

A frase sai da boca da personagem Meredith, interpretada por Sarah Jessica Parker em Tudo em Família, longa de 2005 que terá sequência em breve.

O climão se instaura na sala de jantar, onde está reunida toda a família do noivo de Meredith, inclusive o irmão gay dele.

Ela percebe os olhares de reprovação e espanto e começa a se justificar:

“Bom, acho que ninguém deseja isso… Perdão, não me interpretem mal. Só acho que nenhum pai gostaria que um filho fosse desafiado dessa maneira.”

Até que o noivo provoca: “Por que você não tenta dizer o que realmente quer dizer?”

Enfim, ela diz o que de fato pensa: “Eu só acho que qualquer pai gostaria de ter uma criança normal”.

Você certamente já ouviu um discurso parecido. Muita gente mascara o próprio preconceito com uma narrativa mais palatável, às vezes sem nem se dar conta. O exemplo mais evidente que temos hoje: o eleitor de Flávio Bolsonaro (PL) que se diz contra a corrupção, uma justificativa que não pára em pé diante de tantos escândalos envolvendo o nome do senador. 

O discurso anticorrupção não é o único verniz usado por quem aperta o 22 com orgulho. O combate à criminalidade também está na ponta da língua de quem defende um politíco que homenageou miliciano, um cara que, já senador, defendeu um policial acusado de matar uma menina de 5 anos e atuou em favor de uma proposta que prevê apagar a identificação de munições adquiridas por órgãos de segurança pública.

São falas de gente que parece acreditar que a família Bolsonaro é símbolo de justeza e integridade. Vejam aquela declaração de Renato Gaúcho. Depois de defender seu auxiliar técnico, acusado de violência doméstica, o treinador do Grêmio falou da presunção da inocência, levantou suspeitas sobre falsa acusação, criticou a imprensa, se disse a favor de prender quem bate em mulher, e terminou com um “por isso sou Bolsonaro”. E abandonou a coletiva.

Ele não disse que está com Bolsonaro ou vota nele. Disse “eu sou Bolsonaro”.

Por que não diz o que realmente quer dizer?

É até curioso que ainda tenha gente fazendo malabarismos narrativos para autocensurar discursos machistas, homofóbicos ou racistas. Desde que Jair Bolsonaro ganhou visibilidade e chegou à presidência, um homem notoriamente homofóbico, racista e misógino, outros como ele saíram do armário, autorizados a destilar seu ódio contra mulheres, a população negra e pessoas LGBTQIA+. 

Saíram do armário direto para as casas legislativas de todas as esferas do poder, impulsionados por algoritmos que premiam discursos extremos. O próprio Flávio já disse com todas as letras que “o normal não é a pessoa ser homossexual” e que “mulher é patrimônio turístico” do Brasil.

Tudo o que não presta

A turma bolsonarista acha que “quilombolas, índios, gays e lésbicas é tudo o que não presta”, como declarou o então deputado federal Luis Carlos Heinze (PP) em 2013. A frase ganhou repercussão em 2014. Quatro anos depois, após declarar apoio a Bolsonaro, sua candidatura decolou e ele foi eleito para o Senado pelo Rio Grande do Sul.

Essa gente barulhenta diz que feminicídio não existe, que família é homem e mulher e se recusa a usar o nome social de pessoas trans. Podem até ser minoria entre os milhões de eleitores da família Bolsonaro, mas só existem graças a uma maioria silenciosa que se omite.

Votar 22 apesar de tudo isso é negociar o inegociável. É mirar na corrupção ou na criminalidade para desviar da própria hipocrisia. Ao final, acerta o coração do outro. Talvez, no fundo, no fundo, esse eleitor considere que essas vidas valem menos do que a sua e escolhe alguém que vá dar vazão àquilo que não ousa dizer em público.


As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

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