Numa democracia, qualquer cidadão tem o direito de apoiar o candidato que quiser. Renato Gaúcho também. Pode votar em Jair Bolsonaro, defender suas ideias, fazer campanha e assumir publicamente suas preferências políticas. É um direito seu. Não está em discussão.
O problema começa quando Renato deixa de falar apenas como cidadão e passa a usar a estrutura, a visibilidade e o espaço institucional do Grêmio para fazer política.
Há uma diferença enorme entre essas duas situações. E um profissional com a experiência de Renato deveria conhecê-la melhor do que ninguém.
Um clube de futebol não é propriedade ideológica de seus dirigentes, financiadores ou treinadores. O Grêmio tem torcedores de esquerda, de direita, de centro, conservadores, progressistas e pessoas que simplesmente não querem saber de política. Todos pagam mensalidades, compram ingressos, consomem produtos e sustentam a história da instituição. Nenhum deles precisa apresentar um título de eleitor para demonstrar seu pertencimento.
Quando um treinador usa uma entrevista coletiva, concedida na condição de representante do clube, para manifestar apoio político, ultrapassa uma fronteira que deveria ser respeitada.
Não se trata de censura. Trata-se de responsabilidade profissional.
E o episódio fica ainda mais grave quando a manifestação aparece no contexto de uma defesa pública de um amigo e colega que responde a uma acusação de violência psicológica contra a ex-companheira, com quem manteve um relacionamento de seis anos. É fundamental respeitar a presunção de inocência. Mas também é indispensável compreender a gravidade de uma acusação dessa natureza.
Transformar uma discussão sobre violência contra a mulher em oportunidade para manifestação político-eleitoral é um desserviço. Ao debate público, ao futebol e à própria instituição que o treinador representa.
O apoio de Renato ao bolsonarismo, evidentemente, não é novidade.
Em julho de 2021, ele já se referia a Jair Bolsonaro como "nosso mito". Em novembro de 2022, chegou a prometer participação numa eventual campanha para o retorno do ex-presidente ao Palácio do Planalto. Bolsonaro foi posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Renato tem o direito de continuar apoiando Bolsonaro, o que não pode é agir como se a condição de treinador do Grêmio lhe concedesse autoridade para associar o clube às suas preferências.
E aqui é necessário olhar para além de Renato.
No Internacional, Alessandro Barcellos sofre críticas permanentes, muitas delas absolutamente justificadas pela sua gestão. Mas também convive, desde o início, com tentativas de identificar politicamente sua administração com o PT, partido ao qual esteve ligado.
Essa identificação não significa que todos os integrantes da direção colorada compartilhem suas convicções. Nem autoriza concluir que o Internacional tenha adotado uma posição partidária.
Barcellos entregou uma camisa oficial do Inter ao presidente Lula. Antes dele, Marcelo Medeiros havia feito o mesmo com Jair Bolsonaro. São gestos institucionais dirigidos ao ocupante da Presidência da República. Não deveriam ser confundidos, automaticamente, com manifestações de apoio eleitoral.
A distinção é importante.
No Grêmio, entretanto, alguns episódios recentes merecem uma discussão mais séria.
O empresário Celso Rigo, figura influente nos bastidores gremistas, apareceu em um áudio divulgado publicamente no qual a orientação política de Tite era apresentada como obstáculo à sua contratação. O treinador não seria uma alternativa porque seria "esquerdista".
Desde quando a posição política de um profissional deve servir como critério para determinar se ele pode ou não trabalhar num clube de futebol?
Um treinador deve ser avaliado por sua capacidade, pelo trabalho realizado, pelas ideias de jogo e pelos resultados. Não pelo candidato em quem vota.
Se a orientação política passa a interferir na escolha dos profissionais, o clube deixa de procurar os mais competentes e começa a procurar os ideologicamente aceitáveis.
É uma inversão absurda de prioridades.
A influência de Rigo também merece atenção. Embora não ocupe formalmente a presidência do clube, sua presença nos bastidores é significativa. E a participação de seu filho na estrutura diretiva torna ainda mais necessário discutir onde termina a influência de um apoiador financeiro e onde começa a autonomia de uma instituição que pertence aos seus associados.
No Gre-Nal, a presença de Rigo e do deputado Luciano Zucco, governador eleito e identificado com o bolsonarismo, no gramado, vestindo a camisa do Grêmio e abraçados a Renato, também carregou um significado político.
Nenhum deles está impedido de torcer pelo Grêmio. Evidentemente. Mas o ambiente institucional de um clube não deveria servir para produzir imagens que possam ser interpretadas como demonstrações de alinhamento político.
O Grêmio não é bolsonarista. Também não é petista. É um clube de futebol, com uma história que ultrapassa qualquer eleição, partido ou liderança política.
E seus dirigentes têm a obrigação de preservar essa condição.
Há algo ainda mais preocupante nesse comportamento. O futebol brasileiro está se afastando progressivamente de uma de suas funções sociais mais importantes: a capacidade de integração.
Durante décadas, os estádios foram lugares onde pessoas de diferentes classes sociais, profissões, religiões e posições políticas compartilhavam uma mesma paixão. Isso nunca eliminou preconceitos ou conflitos. O futebol também reproduziu desigualdades e discriminações. Mas construiu espaços de convivência que dificilmente encontramos em outras atividades. A camisa sempre foi o ponto de encontro. Quando dirigentes, financiadores e treinadores começam a tratar os clubes como extensões de suas preferências políticas, essa possibilidade de convivência fica ameaçada.
O torcedor que pensa diferente passa a receber uma mensagem bastante desagradável, de que pode continuar pagando, frequentando o estádio e apoiando o time, mas suas convicções não parecem tão bem-vindas quanto as de quem manda.
É uma forma de exclusão que não precisa estar escrita no estatuto para produzir consequências.
E o problema não se limita à política partidária.
Os clubes brasileiros demonstram uma disposição cada vez maior de subordinar sua identidade, sua história e até seus compromissos sociais aos interesses comerciais. A relação com as casas de apostas é um exemplo evidente. O dinheiro entra, a publicidade ocupa todos os espaços e os efeitos sociais desse negócio raramente recebem a mesma atenção. O torcedor, que deveria ser a razão de existir do clube, vai sendo tratado como consumidor, audiência ou mercado.
Nesse ambiente, a aproximação com políticos deixa de ser apenas uma questão de preferência pessoal. Pode envolver interesses econômicos, influência e poder. Isso exige vigilância jornalística, não complacência.
Renato voltou ao Grêmio cercado pela expectativa de que seria capaz de recuperar uma equipe em dificuldades. Chegou com a imagem de salvador, sustentada por sua história como jogador e treinador.
Até aqui, porém, os resultados não correspondem à expectativa.
O time não apresenta a evolução esperada. Renato distribui responsabilidades, critica decisões anteriores, aponta limitações do elenco, questiona contratações e encontra explicações para quase tudo. O que ainda não conseguiu apresentar é uma resposta convincente sobre a qualidade do próprio trabalho.
E, enquanto o Grêmio precisa desesperadamente de futebol, seu treinador encontra espaço para manifestações políticas e polêmicas que nada acrescentam ao desempenho da equipe.
É uma escolha. E deve ser cobrada.
Renato tem uma história gigantesca no Grêmio. Ninguém pode apagar seus títulos, sua identificação com o clube ou sua importância para gerações de torcedores. Mas essa história não lhe concede imunidade à crítica. Muito menos o direito de confundir a instituição com suas convicções particulares.
O futebol brasileiro já está dividido demais por rivalidades frequentemente exploradas de maneira irresponsável. Não precisa importar para dentro dos clubes o clima de hostilidade permanente que tomou conta da política nacional.
A democracia garante a Renato o direito de pensar e votar como quiser. Essa mesma democracia garante aos gremistas o direito de não serem representados politicamente por ele. O Grêmio não pertence a Renato, a Celso Rigo, a qualquer dirigente ou a um grupo político. Pertence à sua comunidade de torcedores e talvez esteja na hora de lembrar ao treinador que sua obrigação profissional é unir o Grêmio em torno do futebol, não dividir sua torcida em torno de Bolsonaro.
Renato foi contratado para dirigir um time de futebol. Não para dirigir o pensamento dos gremistas.