Minha bronca com as vitórias da Argentina, na Copa, não se deve ao indefensável racismo que cidadãos argentinos manifestam claramente, talvez hoje mais que ontem. Nem se deve a uma hipotética e delirante conspiração envolvendo a Fifa e os árbitros todos, muitos dos quais efetivamente atuaram em benefício do time argentino. Um levantamento que vi nas redes diz que todas as equipes que disputaram a Copa deste ano tiveram em algum momento uma ação do VAR contra si, menos um. Adivinha qual?
Igualmente não se deve à garra, ao denodo (senti falta dessa palavra nos comentários até aqui, de forma que a ofereço graciosamente), ao impressionante esforço para virar placares desfavoráveis nas derradeiras voltas do ponteiro dos minutos (sim, sei que quase não há mais esses ponteiros). Isso eu invejo. Muito menos se deve, a minha bronca, ao óbvio poder de dribles velozes e miraculosos chutes do Messi, outro item a dar inveja.
Também não se deve à derrota da seleção brasileira, que foi embora sem deixar saudades. Uma desculpa que rolou para o fracasso canarinho foi que grande parte dos jogadores vive fora do Brasil desde muito cedo, quase todos eles já com grana suficiente para viver sem preocupações pelas próximas gerações; basta olhar para a seleção argentina e ver que a chama de orgulho nacional, um dos motores de qualquer Copa ou Olimpíada, coexiste com essa diáspora, que manda para fora os craques ainda muito jovens, na ciranda financeira infernal que virou o mundo do futebol, ciranda da qual não conhecemos provavelmente nem um décimo.
Onde então reside a minha bronca, que me fez torcer apaixonadamente pela Espanha na final – eu, que achava até ali muito aborrecido o estilo de jogo deles, que mais parece um videogame do que um campo com gente de carne, osso e nervo? Eu, que considerava desleal o cabeludo Cucurella?
Na mistura de arrogância, desfaçatez e desrespeito às regras do jogo. Especialmente as regras não escritas da cortesia, do saber arriscar e saber perder, do arcar com as consequências dos próprios atos. Se o distinto leitor se interessar em ver provas, basta deixar correr um dos incontáveis vídeos contendo imagens de socos, burlas de má-fé, agressões disfarçadas com caras de anjo e pressão descabida sobre juízes e adversários. Não, caros argentinos, isso tudo não foi invenção nossa, nem de ingleses, de alemães, mexicanos, franceses, que publicam imagens de jogos e análises de ex-jogadores e jornalistas. Isso simplesmente foi o que se viu, numa Copa que foi difundida em imagens como nunca antes.
Por que esses jogadores argentinos, liderados por um treinador que parece muito boa gente, civilizado, que por sinal sempre elogiou o que deve ser elogiado (mas – não esquecer – sempre silenciou sobre as várias e reiteradas maldades feitas por atletas seus), agiram assim? Temperamento? Sempre foi assim, mas creio que em escala mais moderada. E por que esse comportamento malvado, documentado e à disposição de quem quiser ver, polarizou tanto a opinião pública, a ponto de estarem falando, dentro e fora do país vizinho, de uma “argentinofobia”?
Claro que muita gente descontente com os hermanos passou do ponto e quis ver, naquele grupo de jogadores e nos racistas que foram destacados em cortes nas redes, todo o país, toda a população, o que é uma demasia óbvia e perniciosa. Até o orgulho com que a massa torcedora recebeu de volta os jogadores foi tratado como mais um item de racismo, quando de fato expressa algo mais profundo e valoroso, a encarnação concreta daquela velha e própria ideia de que o esporte é uma encenação de guerra ao oferecer uma oportunidade de expressar a solidariedade interna a cada uma das partes envolvidas.
Eu boto nessa conta, de fora para dentro, como já dito, a estupefação de todo o mundo com a ausência de elementos básicos da ética esportiva por parte da maioria dos jogadores argentinos; o desalento de não haver uma boa alma entre esses jogadores que representasse uma voz a favor do bom senso dentro de campo e de causas que nosso tempo colocou em destaque, como a luta antirracista; até mesmo a figura desconcertante, abominável, arrogante em grau máximo do Milei, que embora não tenha nada que ver com a seleção, nem com a Copa, é um onipresente ator da ascensão da extrema direita antipovo no mundo atual.
De dentro para fora, quero dizer, da parte dos torcedores argentinos, e deixando de lado gente razoável que simplesmente torcia por seu time como qualquer de nós torce pelo seu, creio que houve uma adesão singularmente nacionalista (num país de forte nacionalismo em geral) que viu na seleção uma desforra das incontáveis humilhações perpetradas pelo governo Milei contra instituições realmente veneráveis do nosso vizinho, como as Mães da Praça de Maio, como as universidades e seus pesquisadores, contra um Estado de bem-estar que, embora combalido, ainda oferecia certa dignidade ao povo.
Milei, com sua política, vem pisando na cabeça e no coração dos argentinos do mesmo modo como nós fomos pisoteados por quatro anos de governo bozo. Eles estão no auge do calvário liderado por aquela figura lamentável, títere de Trump e de Netanyahu, dois líderes mundiais do arbítrio e da truculência.
E falta falar de Messi, que é genial mas não é nem nunca foi líder de nada. Um líder não existe apenas porque dizem que ele o é: um verdadeiro líder se apresenta na cena, conquista seus liderados, vocaliza, dá exemplo. (Nem no Brasil tivemos essa figura, que sim existiu encarnada no Rodri, da Espanha, no Mbappé francês, no Salah egípcio, no Vozinha caboverdeano.)
Um Messi que fosse menos chorão, que não intimidasse os juízes (nenhum deles ganhará nem em dez vidas o que o Messi já acumula em um ano de contrato) nem os oponentes (especialmente os de países pobres); um Messi que não tivesse a mesquinhez de avançar uns metros o local da falta para cobrá-la mais perto do gol; um Messi que não ficasse de costas para a festa do vencedor da final – esse Messi seria representativo. Mas não era, não foi, nem será.
Isso em nada altera meu apreço por Borges ou Piglia, nem me afastará da música e dos amigos argentinos. Nem mesmo essa lamentável passagem da seleção argentina pela Copa, seleção que não é a Argentina, não é sua cultura, não é seu povo.
Luís Augusto Fischer
Nesta edição
Fazendo um encerramento sobre a Copa do Mundo, Marcelo Carneiro da Cunha compara o sentimento das nações brasileira e argentina após a perda na grande competição. Julieta Jerusalinsky, por sua vez, aborda o discurso de ódio praticado contra a Argentina nesta Copa.
Pelo centenário de José Paulo Paes, a Parêntese separou três textos especiais sobre a vida e obra do poeta: de Sérgio Karam, uma atenção especial para o trabalho do autor como tradutor e editor da tradicional Cultrix; Marcelo Sandmann trata sobre a relação de Paes com Curitiba e os poemas escritos com base no tempo passado na cidade; já Arthur de Faria entrega um relato mais pessoal, passando pelos recortes de poemas do autor que marcaram sua vida e inspiraram suas músicas.
Para quem acha que música parodiada é coisa do passado, no terceiro e último texto sobre o assunto, Breno Serafini aborda uma dupla que estourou durante a pandemia com versões bem-humoradas e críticas de clássicos da música popular brasileira.
Manoel Madeira escreve sobre Gilmar, um leitor voraz que vive em situação de rua em Porto Alegre. Preocupada com o futuro, Iami Gerbase se questiona sobre a utilidade da leitura e da escrita quando essas atividades estão sendo terceirizadas para a inteligência artificial.
Para encerrar, no sexto capítulo de Sussuarana, de Alice Elnecave Xavier, o ano de 2021 traz revelações sobre a relação das protagonistas. Juremir Machado da Silva se encanta com fotografias de Paris feitas pela médica Miriam Oliveira, e Gonçalo Ferraz nos conduz à segunda parte do 14° capítulo do Cordel do Corte Raso.
Boas leituras!