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Metade das escolas da rede estadual estão 100% climatizadas; em POA, percentual sobe 6%

Levantamento feito pela Matinal mostra que problemas na rede elétrica ainda são maior empecilho para climatização

Metade das escolas da rede estadual estão 100% climatizadas; em POA, percentual sobe 6%
Foto: Claudio Fachel/Piratini

A volta às aulas neste ano pretende ser diferente em metade das escolas estaduais. De 2024 para cá, mais da metade das instituições de ensino da rede (52%) já estão com 100% das salas climatizadas, ante cerca de 7% que já tinham ar em todas as salas no último censo escolar. 

Na Capital, o avanço na climatização foi bem inferior. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, 6% ganharam um aparelho de ar em todas as salas de aula neste ano, mas todas já contam com pelo menos um aparelho de ar-condicionado. Não foi possível checar os dados com o censo, já que a edição relativa a 2025 ainda não foi publicada.

No ano passado, ondas de calor levaram ao adiamento do início das aulas. Para este ano, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que 2025 foi um dos três anos mais quentes já registrados. Este ano já começa com previsão de instabilidade e extremos no clima. 

Segundo o prognóstico climático do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) haverá temperaturas acima da média durante os meses de verão na região sul – especialmente na porção oeste do estado, chegando até 1ºC acima do padrão.

Em 2025, a Secretaria de Educação (Seduc) estadual distribuiu orientações para os diretores no último ano, frente às ondas de calor: ajustar os horários de entrada e saída; suspender atividades físicas nos picos de calor; ampliar a oferta de água aos alunos e adaptar a merenda escolar; e reorganizar atividades ao ar livre. 

Em resposta à Matinal, a Seduc explicou que as orientações devem seguir para 2026, mas não há um protocolo geral de suspensão das aulas frente a ondas de calor – as situações são analisadas caso a caso, com as coordenadorias regionais de educação. Na capital, a Smed também informou que o protocolo de 2025 deve seguir, com orientações similares às do estado. 

O documento para as escolas do município ainda inclui priorizar salas climatizadas para atividades pedagógicas, usar ventiladores, e orientar as famílias sobre o uso de roupas leves.  Uma instrução normativa da Smed determina que a suspensão das aulas pode ocorrer frente a intempéries climáticas, mas não exemplifica quais seriam esses casos. 

Consultados, tanto Cpers quanto Atempa, associações de professores e trabalhadores em educação do estado e do município respectivamente, não descartaram a possibilidade de novas ações judiciais em busca de ajustes ou da suspensão das aulas frente a novas ondas de calor.

Alívio chegou pela metade

Em Porto Alegre, 64% dos alunos frequentavam escolas sem ar- condicionado em nenhuma sala em 2024, e somente 20 das 99 escolas municipais estavam totalmente climatizadas. De lá para cá, apenas seis novas escolas ganharam ar-condicionado em todas as suas salas, conforme informou a Secretaria Municipal de Educação (Smed), totalizando 26 ou 26%. 

Segundo a Smed, no início de 2025, 57 escolas não tinham rede elétrica adequada para instalação total de ar-condicionado. Ao longo do ano, nove reformas foram concluídas, e restam 48 com a fiação ainda inapta para a instalação de aparelhos. Em 2026, segundo a prefeitura, o objetivo é reformar a parte elétrica em pelo menos mais 10 escolas. E garantiu que a empresa vencedora da PPP Escola Bem-cuidada irá climatizar todas as salas das escolas municipais sem dar um prazo. O leilão para definir a empresa responsável não só pela climatização, mas pela reforma e manutenção de todas as escolas por 20 anos ocorreu em dezembro: o Consórcio Cuidar Porto Alegre, composto pelas empresas Afonso França e Astra, saiu vencedor. 

A PPP foi criticada por especialistas por apresentar risco de interferências ao processo de aprendizagem, que argumentaram que todos os aspectos da gestão de uma escola, da parte financeira-administrativa ao currículo, influenciam a qualidade pedagógica. 

Para a diretora da Atempa, Rosele de Souza, ainda faltam propostas concretas de climatização nas escolas da capital. “Tanto as escolas de ensino fundamental quanto as de ensino infantil de Porto Alegre são escolas antigas, e não se previa essa quantidade de equipamentos na rede elétrica. Temos uma fiação muito antiga e não tem estrutura para comportar a instalação de ar condicionado”, explica. “Eu saí da direção de uma escola municipal em 2023 e essa demanda já existia. Estamos entrando em 2026. Se tem algo de concreto, se vai funcionar, não se sabe”, desabafa.

Para Souza, os prejuízos da infraestrutura sobre a aprendizagem dos alunos já transparecem em índices amplamente divulgados pela gestão municipal. “Estamos falando em uma gestão que prioriza dados, o que aparece é que Porto Alegre tem os piores índices educacionais. Mas não aparece o que está por trás desses números: a falta de ar condicionado, ventilador, de condições de acesso à escola”, argumenta.

Já no Rio Grande do Sul, dados do Censo Escolar de 2024 apontavam que ar em todas as salas era raridade: somente 156 das 2.138 escolas tinham o aparelho na totalidade dos espaços de ensino, o que representa cerca de 7%. Ou seja, 72% dos alunos da rede estadual (mais de 5oo mil estudantes) frequentavam salas de aula sem ar condicionado em 2024. Uma parcela bem menor, 16% (116 mil alunos), estavam matriculados em escolas que contavam com climatização em mais da metade das salas da instituição. 

De acordo com a Secretaria de Educação (Seduc) do estado, a situação melhorou muito: hoje 52% já contam com climatização em todas as salas e 69% possuem ao menos uma sala climatizada. Em 2024, escolas com ao menos uma sala climatizada eram 28%. Não foi possível checar as informações das secretarias com os dados no Censo, por falta de atualização.

Rede elétrica defasada ainda é maior desafio para climatização

A verba para compra de ar condicionados não é o maior empecilho para a climatização das escolas. Segundo a presidente do Cpers, Rosane Zan, em muitas escolas os aparelhos já foram adquiridos, até com ajuda da comunidade escolar, mas a fiação antiga das escolas não permite o uso.

Anualmente, o Cpers faz uma caravana pelas escolas estaduais para verificar a situação da rede e envia questionários para as escolas. Em 2025, das 885 escolas que participaram do levantamento, 472 relataram problemas estruturais graves. O mais frequente é o comprometimento da rede elétrica.

“Sempre cobramos que as escolas têm de receber investimentos de forma padronizada. O governo acaba atuando em escolas onde há maior cobrança por parte da comunidade escolar, mas hoje um ar condicionado não é questão de luxo, mas de necessidade para o ensino-aprendizagem”, pontua Rosane Zan, presidente do Cpers.

Ainda de acordo com a Seduc, o avanço na climatização foi possível pela modalidade de Contratação Simplificada, onde uma empresa é licitada e fica responsável por atender lotes de blocos regionais de prédios públicos. Segundo a pasta, é uma forma de reduzir os prazos. Um modelo integrado de licitações é analisado pela SOP.

Para a deputada estadual Sofia Cavedon (PT), o modelo ainda apresenta problemas e não é capaz de resolver as necessidades das escolas. “As contratações por atas, simplificadas, começaram a dar problemas no ano passado. Fizemos denúncias, mostrando que obras eram maquiadas, feitas só em parte”, afirma Cavendon. 

O Agiliza Educação é outro programa que, segundo a Seduc, facilitou as reformas nas escolas de maneira pontual. Nesta modalidade, a verba vai diretamente para as escolas. Foram R$ 305 milhões em 2025 investidos na rede pública de ensino. 

Para Cavedon, o programa Agiliza é eficiente, mas pode ser melhor aplicado. “O recurso é repassado direto para a escola, mas serve apenas para reparos pontuais, como trocar forro, fazer pintura ou comprar um ar condicionado”, explica. “As escolas poderiam fazer mais, com auxílio de técnicos da secretaria, claro, mas poderiam conduzir essas reformas por si próprias”, defende a deputada.

Valentina Bressan

Repórter investigativa na Matinal. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já publicou nas revistas Veja Saúde, Viagem & Turismo e Superinteressante. Contato: valentina@matinal.org

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