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Projeto liderado pela UFRGS capacita meninas para atuar na transição energética do país

Iniciativa foi conduzida também pelas universidades federais de Santa Maria e de Santa Catarina e atuou nas redes públicas do RS e de SC

Projeto liderado pela UFRGS capacita meninas para atuar na transição energética do país
Estudantes foram ao Campus da UFRGS no litoral norte apresentar suas invenções | Foto: Isabelle Rieger

Na escola municipal Fredolino Chimango, em Passo Fundo, uma turma de cinco alunas decidiu reunir os conhecimentos práticos e teóricos para criar uma invenção tecnológica sustentável: um biodigestor feito de materiais reciclados. O dispositivo foi construído utilizando um galão de 5 litros, mangueira, canos de PVC, cola e uma válvula. Como explica a estudante Emilly Machado, de 15 anos: “O biodigestor produz biogás. Ele é feito com resíduos orgânicos, ou fezes de animais, e não polui a atmosfera. Serve como gás de cozinha normal, mas sem uso do petróleo.” 

No projeto, as meninas utilizaram restos da merenda escolar com o objetivo final de cozinhar uma carne de chuleta apenas com o gás gerado. Além do viés ambiental, o projeto tem uma função social: o baixo custo, que beneficia populações com menos recursos.

A iniciativa que resultou no biodigestor faz parte do projeto "Energizando a Equidade: Meninas e Mulheres Impulsionando a Transição Energética", financiado pelo CNPq. Ao longo de um ano, a proposta levou a cinco escolas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina conhecimentos técnicos e práticos sobre as fontes de energias renováveis. O processo formativo envolveu aulas práticas, teóricas, mostras científicas e mentorias a 30 adolescentes conduzidas por professoras de universidades federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Santa Maria (UFSM) e de Santa Catarina (UFSC). 

Professora Lizandra Barreto coordenou o projeto na escola de Passo Fundo | Foto: Isabelle Rieger
Um biodigestor gera gás com resíduos.| Foto: Isabelle Rieger

Coordenado pela professora Aline Pan, professora de Engenharia de Gestão de Energia e do Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física da UFRGS, o projeto quer capacitar meninas dos ensinos fundamental e médio para ocupar espaços ativos na transição energética, promovendo diversidade e equidade de gênero no setor desde a educação básica. Em três anos, a iniciativa pretende impactar diretamente 142 mulheres e mais de 5 mil estudantes da rede pública em diferentes escolas do sul do país.

Os conteúdos contemplam desde a geração solar fotovoltaica, eficiência energética e gestão inteligente da energia até reflexões sobre gênero. Do início ao fim, as pesquisadoras responsáveis pelo projeto instigaram as meninas a pensar sobre como é ser uma mulher na ciência. Mais especificamente: como é ser uma mulher no setor da energia? 

Estudantes e pesquisadoras que coordenaram as aulas reuniram-se no campus da UFRGS no litoral norte | Foto: Isabelle Rieger

Segundo um estudo realizado pela Greener em 2024, 35% das empresas de tecnologia fotovoltaica no Brasil não contam com mulheres em suas equipes técnicas, e apenas 7% das mulheres do setor atuam em engenharia ou projetos.  Por outro lado, são as mulheres as mais impactadas por uma série de questões envolvendo a energia, desde a carbonização dos territórios, a construção de termelétricas, até o aumento da fatura de energia, já que a maioria dos lares brasileiros é chefiado por elas segundo o IBGE. 

A emergência climática impacta as mulheres de forma distinta, de acordo com estudos recentes como o Gender Spotlight (2024) e o UN Spotlight (2025). As pesquisas mostram como as mudanças climáticas expõem meninas e mulheres a maiores índices de violência, insegurança alimentar e problemas de saúde. 

O Brasil vem registrando um aumento do uso da energia solar e eólica. Segundo dados do Balanço Energético Nacional (BEN), o uso de energia renovável superou o de não renováveis pela primeira vez em 2023. Mas ainda existe o desafio de fazer valer uma transição energética justa e respeite os direitos das populações, comunidades tradicionais e demais impactados.

Florinda Hoppe Pereira foi uma das estudantes contempladas pelo projeto | Foto: Isabelle Rieger

Nicoly da Silva conta que tudo foi uma grande novidade para ela e que as lições foram além do conteúdo: “Eu não sabia sobre o assunto, fui aprendendo conforme o curso foi passando. O que eu mais gostei foi descobrir que não são só os homens que fazem ciência, as mulheres também têm capacidade de fazer.” 

Antes de ingressar no projeto, a estudante cultivava o imaginário de que “engenheiro” era uma profissão que sempre seria flexionada no masculino. Não imaginava que havia tantas mulheres na área, até conhecer as professoras que ministraram as oficinas – todas pesquisadoras da UFRGS, UFSM e UFSC – e acessar as referências trabalhadas no curso. A adolescente conta ainda que, após as aulas, comentava com a avó alguns dos aprendizados semanais, como informações sobre a conta de luz e a importância de desplugá-los da tomada.

A professora de matemática Lizandra Barreto, que liderou o processo na escola, destaca que o espaço permitiu às meninas refletirem sobre energias renováveis e compartilharem questões pessoais que não surgiriam em uma sala de aula comum. A dinâmica do grupo, formado apenas por meninas, gerou uma mudança na relação com a escola. Ana Luiza Amaral, de 15 anos, se sentiu mais à vontade para estudar e expor suas ideias. “Os meninos são mais agitados, falam demais e acabam tirando o foco... No curso com as meninas, todo mundo se escuta. Ninguém zoa ninguém”. Para Ana, o projeto mudou sua visão sobre o que é ser cientista, mostrando que uma engenheira também pode ocupar esse papel. “Acho bem importante porque pode mudar a nossa cabeça. Somos mais novas, então podemos mudar a perspectiva de pensamento sobre igualdade de gênero. Agora a gente sabe que muitas mulheres trabalham com esses assuntos e têm muito conhecimento sobre o tema”, conta a estudante.

Todas as escolas integrantes do projeto contaram com uma docente responsável por coordenar as atividades. Em Passo Fundo, a professora de matemática Lizandra Barreto inscreveu a escola no edital aberto no começo de 2024 e liderou o processo. Como uma mulher na área das ciências exatas, ela percebe que o projeto desenvolveu novas habilidades nas estudantes e gerou mais interesse no aprendizado.

“A ideia não é que elas se tornem, necessariamente, cientistas ou engenheiras. Aprender sobre tudo isso é um processo de tornarem-se cidadãs.”

“O projeto nos deu oportunidade para refletir. Às vezes, na vida dentro da escola, não temos esse tempo. Queríamos trabalhar sobre as energias renováveis, ouvimos a todo momento na mídia, mas nunca paramos para pensar em como fazer”, relata a professora. “Falar sobre equidade de gênero também abre espaço para as meninas contarem suas questões pessoais, desabafem, algo que em sala de aula não seria possível.”

Alunas e professora criaram um vínculo muito mais profundo. “Ela já era nossa professora, mas a gente não conversava tanto com ela. Agora a gente criou um vínculo enorme”, conta Emily.

Foto: Isabelle Rieger
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O poste ecológico (foto acima) criado pelas estudantes tem uma luz sinalizadora portátil, que pode ser removida. A invenção foi construída integralmente pelas alunas durante os encontros do projeto e tem uma estrutura leve que o torna móvel. Dividido em três partes, conta apenas com materiais recicláveis ou sustentáveis. A lâmpada delead, disposta no topo, é carregada com energia solar. Na base, cinco bombonas de água sustentam a estrutura, preenchida com cimento e flores plantadas. No centro, um cabo de vassoura mantém o poste de pé, e uma bateria de lítio permite que a luz funcione até 6 horas. “A nossa lâmpada tem vários tipos de iluminação diferentes, e uma delas pode piscar caso alguém precise de ajuda”, explica Júlia.

Soluções em tempos de emergência

Em Tramandaí, na Escola Estadual de Ensino Médio Assis Brasil, o contexto de emergências climáticas e ciclones inspirou as alunas a criarem um poste móvel abastecido por energia solar fotovoltaica. A estrutura de 2 metros e 25 quilos foi construída com materiais sustentáveis, como bombonas de água e cabos de vassoura, permitindo carregar celulares e iluminar ambientes por até 6 horas em casos de desabastecimento elétrico.

Julya dos Santos Barufi, 15 anos, conta que a ideia surgiu da preocupação compartilhada do grupo com a população da cidade e da experiência que tiveram durante as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, em 2024. “Acontecem muitos ciclones aqui. E quase sempre, a gente fica sem luz. Uma vez aconteceu comigo, eu estava sozinha em casa, sem bateria, e não tinha nem uma lanterna. Se eu tivesse um poste como esse, poderia usar.” 

 Além de pensar na comunidade de Tramandaí, o grupo posicionou o poste, de 2 metros de altura e base de 25kg, no pátio central da escola, pensando nas turmas noturnas que, muitas vezes, sofrem com a falta de luz. “A gente aprendeu bastante sobre como as fontes de energia renováveis podem ser boas e também como podem ser mais utilizadas na nossa comunidade e na nossa escola”, conta.

 Júlia se sente diferente depois da participação no projeto. “Mudou bastante coisa em mim. Com o projeto, a gente ocupou a cabeça e ficou com vontade de aprender mais e mais, desenvolver a nossa criatividade em outros lugares da nossa vida, não só na escola”, analisa. “Fiquei muito surpresa com o fato de que 80% das pessoas que mexem com energia são homens.”

A professora de biologia Sinara Santos, responsável pelo projeto na escola de Tramandaí, percebeu uma transformação nas estudantes. “Elas estão diferentes com as responsabilidades, o comprometimento. Conseguem se articular melhor, pensar em coisas diferentes, se desafiar. Elas estão mais empoderadas, se tornaram mais líderes até dentro da turma.”

Já em Florianópolis, na Escola Simão José Hess, as estudantes desenvolveram o Ecojump, um jogo digital criado no software Godot que utiliza Pixel Art e lógica de programação para ensinar crianças sobre fontes de energia limpa. O Ecojump desafia o jogador a responder perguntas sobre energia solar, eólica, hídrica e outras fontes limpas. “Eu me sinto mais autoconfiante, vi que eu posso fazer coisas que não faziam parte do meu mundo antes”, afirma Thamyres Gonçalves. Sua colega Giovana Salgado, de 15 anos, expressou surpresa com sua própria capacidade de escrever textos formais e participar de mostras científicas. “Eu nunca imaginei que eu conseguiria estar em uma Mostra de Iniciação Científica. Foi muito legal. Acho que sou uma pessoa muito mais focada hoje. Me dediquei bastante para escrever um texto com as minhas próprias palavras, e foi legal ver que ficou formal.” 

Thamyres Gonçalves é uma das estudantes de Florianópolis que participou do projeto | Foto: Isabelle Rieger

A trajetória dessas meninas é espelhada na vida da coordenadora geral, Aline Pan. Há 30 anos trabalhando com o tema da energia, ela é fundadora de diversas iniciativas que levam as questões de gênero para dentro do setor, como a Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (MESol) e o Grupo Equidade de Gênero da Capes.

O interesse pelo assunto surgiu na graduação de Física, em 1998, na UFRGS, quando participou de um projeto de Iniciação Científica sobre energias renováveis. Desde então, nunca mais parou. A energia solar fotovoltaica é um tema ao qual Aline se dedicou em todas as etapas da vida acadêmica, inclusive no doutorado sanduíche na Universidade Politécnica de Madrid (UPM), na Espanha. A pesquisadora conta que as tentativas de desacreditá-la sempre existiram em sala de aula, mas ela seguia. “Como eu fiz minha carreira na engenharia, me acostumei com piadinhas diversas”, relata.

Em maio de 2015, um acontecimento mudou suas trajetórias pessoal e profissional: a gravidez trouxe novas perspectivas sobre gênero. “Comecei a descobrir novas violências e entender a questão de gênero na ciência”, conta. Ouviu frases como “a sua produtividade baixou nos últimos anos” – exatamente o tempo da licença maternidade. 

A elaboração do projeto Energizando a Equidade é também uma resposta a toda trajetória que levou Aline a ser considerada uma das maiores especialistas brasileiras em Energia Solar Fotovoltaica e Energias Renováveis. “Existe uma cultura consolidada de que a ciência não pode ser ensinada. A gente precisa desmistificar isso”, relata. “A ideia não é que elas se tornem, necessariamente, cientistas ou engenheiras. Aprender sobre tudo isso é um processo de tornarem-se cidadãs. É sobre entender a fatura de luz, por exemplo, e como as decisões sobre energias renováveis afetam elas.”

Outra reivindicação de Aline é que se discuta mais gênero nos cursos de graduação. “Quem cursa ciências sociais sabe no primeiro dia que vai falar sobre gênero. Quem é das ciências exatas não, é algo velado.” Para ela, o rompimento de estereótipos, ao lado do conhecimento científico, é uma poderosa ferramenta educativa.

A história de Aline Pan se une à da reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Márcia Barbosa. Física de formação, Márcia enfrentou os mesmos obstáculos de Aline e hoje tenta desmistificá-los unindo ciência e arte. As meninas do projeto assistiram a uma apresentação teatral criada por Barbosa e pela pesquisadora Carolina Brito, doutora em física pela UFRGS, que retrata situações cotidianas vividas no mundo acadêmico e profissional, como assédio, mansplaining, desigualdade salarial e assimetrias nas oportunidades dentro da ciência. 

Márcia Barbosa, reitora da UFRGS, aborda questões de gênero na ciência de forma lúdica | Foto: Isabelle Rieger

Com fantasias, perucas, bigodes, a dupla criou personagens e cenas bem-humoradas a partir das próprias experiências e de relatos de outras pesquisadoras. As histórias também se transformaram no podcast Ciência como ela é: a saga de Carlota, financiado pelo Instituto Serrapilheira e realizado por um grupo de pesquisadores. 

“É maravilhoso quando as crianças conhecem o que se pode realizar nas áreas de engenharias e exatas. Tudo começa com a desconstrução de um estereótipo do cientista como homem ‘maluquinho’, branco”, reflete a pesquisadora, que também criou o projeto Mulheres na Ciência. “Isso faz com que as meninas, crianças negras, meninos não considerados ‘nerds’ na escola possam se interessar pela área, um campo que tem alta empregabilidade no Brasil”, reflete a reitora da UFRGS, indicada pela ONU Mulheres como uma das sete cientistas que impactaram o mundo com seu trabalho em 2020.

No mercado de trabalho, a desigualdade ainda é latente. Nicole Figueiredo, diretora-executiva do Instituto Arayara, aponta que o setor de energia é dominado por homens brancos e que decisões cruciais muitas vezes ignoram o impacto nas mulheres, as mais afetadas pela carbonização e pelo aumento das tarifas de energia. Nicole, que atua no combate à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, questiona se a transição energética não seria mais justa se houvesse mais mulheres na liderança. Basta olhar os projetos realizados pelas estudantes do Energizando a Equidade. Elas tinham em mãos um desafio: pensar sobre as energias renováveis. Não fizeram isso sem considerar as comunidades do seu entorno.

Esta reportagem foi contemplada pela Seleção Petrobras de Jornalismo: Ciência e Diversidade, edição 2025.
Anna Ortega

Anna Ortega

Repórter e fotojornalista. Já colaborou com The Guardian, Piauí, UOL, G1, Portal Lunetas e Dialogue Earth. Coordenadora de Jornalismo do Nonada.

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