O custo de denunciar uma agressão sexual
Na peça Prima Facie, Débora Falabella interpreta Tessa, uma advogada bem-sucedida que tem entre seus clientes agressores sexuais. Ela acredita que seu papel é ser uma mera operadora da Lei. Lamenta pelas mulheres que se sentam no banco das testemunhas enquanto ela defende seus algozes, mas, o que fazer?, pensa, afinal, todos têm direito à defesa, e toda história tem brechas, ela só busca onde estão os furos da narrativa.
Até que um dia Tessa é estuprada por um colega. Ao decidir levar a ação adiante, ela sabe o que vai enfrentar. O roteiro é bem conhecido: uma mulher denuncia seu abusador e passa a ser alvo de uma série de constrangimentos, humilhações, questionamentos, sente vergonha, culpa, sem falar nas dores físicas e emocional de ter sido tratada como lixo. A semelhança com a realidade não é mera coincidência.
Tessa se vê solitária ao longo de todo o processo, inclusive no dia do júri, quando está acompanhada apenas pela mãe, em um tribunal cheio de homens. De um lado, ela e o promotor; do outro, o seu estuprador, filho de desembargador, com o melhor advogado que o dinheiro pode pagar e os brothers dele lotando as galerias do tribunal.
Desacreditada e revitimizada, ela compreende, enfim, que as regras do jogo que sempre jogou não foram escritas para as mulheres.
Sem surpresas

No início de Prima Facie, que encheu o Teatro da PUCRS em três noites na semana passada, toca uma música do Radiohead chamada No surprises. A letra não tem nada a ver com a história do espetáculo, mas o título grudou em mim assim que reconheci a canção. Tomei-o como um spoiler.
Nada na história surpreende para quem acompanha o noticiário: a brutalidade vinda de quem se espera amor, críticas de quem devia apoiá-la, revitimização de quem lhe devia justiça. O Brasil soma uma vítima de estupro a cada seis minutos. Poucas mulheres denunciam, o dado é subnotificado. Menos ainda são os homens condenados.
A vergonha tem que mudar de lado
Na série Machos Alfa, da Netflix, a personagem Daniela é agredida sexualmente por um cara com quem ela está saindo. Ciente da grande repercussão que o caso terá, já que o abusador é deputado, Daniela hesita, mas acaba decidindo processá-lo. Ela evita dar entrevistas, enquanto seu agressor aproveita para negar publicamente as acusações. À medida que o processo avança, assistimos ao mesmo roteiro de sempre: a vítima é desacreditada pela opinião pública e por jornalistas e revitimizada pelo juiz na audiência.
Cansada de ser chamada de vadia e mentirosa e de ser acusada por estar se beneficiando com a atenção recebida, decide falar à imprensa. Quando a jornalista pergunta o que ela diria às mulheres que foram agredidas sexualmente e permanecem em silêncio, responde:
“Não denunciem. Vejam o que acontece”.
Para incentivar Daniela a manifestar-se, uma amiga lhe diz que “a vergonha tem que mudar de lado”, uma referência à frase cunhada por Gisèle Pelicot, que por mais de 10 anos foi drogada por seu marido para que fosse estuprada por ele e por outros homens. Só em 2020, Pelicot descobriu os horrores pelos quais passou e, em 2024, aos 72 anos, protagonizou o maior julgamento de estupro na França.
Ela conta que, inicialmente, queria se manter no anonimato, por vergonha. Mudou de ideia ao perceber que, se o julgamento fosse feito a portas fechadas, seria apenas ela, seus filhos e sua defesa contra 51 homens e os 40 advogados deles. Com o alcance da sua história, deixou de se sentir só e comemorou com mulheres do mundo todo a condenação de seus estupradores.
É difícil falar em justiça quando o que está em jogo vai além da dignidade e integridade física e emocional da vítima. Em Prima Facie, a fictícia Tessa perde a ação e lamenta que seu estuprador não vai precisar admitir que o que fez foi errado.
Só viveremos em um mundo justo e seguro para as mulheres quando o último homem entender que não tem direito nenhum sobre os nossos corpos. Uma realidade que parece tão inatingível na vida real que nem a arte ousa imaginá-la.
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