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Débora Falabella: "O Brasil é um país violento para mulheres"

Atriz apresenta o premiado monólogo "Prima Facie" no Salão de Atos da PUCRS

Débora Falabella: "O Brasil é um país violento para mulheres"
Annelize Tozetto/Divulgação

Há dois anos em cartaz e com mais de 150 mil espectadores no Brasil, Prima Facie apresenta Débora Falabella em seu primeiro solo teatral. Dirigida por Yara de Novaes, a premiada peça que levanta questões sobre a violência contra a mulher e o papel da justiça terá sessões entre quinta-feira (4/6) e sábado (6), no Salão de Atos da PUCRS.

A atriz encarna em cena a bem-sucedida advogada Tessa, que tem entre seus clientes homens acusados de violência sexual. Vinda de uma família pobre, a jovem profissional batalhou muito para vencer no competitivo mundo do direito.

Enquanto saboreia o sucesso, Tessa passa por uma experiência pessoal traumática que a leva a rever valores e princípios – além de refletir sobre o sistema judicial, o machismo, a condição feminina e as relações ambíguas entre hierarquias de poder no ambiente profissional.

Annelize Tozetto/Divulgação

Desde a sua estreia em Londres, em 2022, Prima Facie seguiu uma trajetória meteórica. Escrito pela dramaturga e advogada australiana Suzie Miller, o texto ganhou dezenas de montagens ao redor do mundo, conquistou a Broadway nova-iorquina e o West End inglês, virou objeto de disputa entre produtores e inspirou debates e esforços para mudar leis britânicas sobre o abuso de mulheres.

Por sua impressionante atuação nessa montagem, Falabella venceu os prêmios Shell e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor atriz de teatro, entre outros. O espetáculo acaba de levar cinco troféus no Prêmio APTR (Associação dos Produtores de Teatro), incluindo melhor atriz e direção.

Annelize Tozetto/Divulgação

Na entrevista exclusiva a seguir, Débora Falabella comenta sobre Prima Facie, reflete a respeito do crescimento da violência contra a mulher no Brasil e adianta projetos profissionais futuros.

Annelize Tozetto/Divulgação

Por que você escolheu estrear em monólogo com Prima Facie?
Eu nunca tinha feito um monólogo e tinha muita vontade de entender como seria isso. Quando li Prima Facie, senti imediatamente que havia algo muito forte naquele texto. Era uma personagem extremamente complexa, contraditória, inteligente, e um texto que coloca o público muito perto dela. O desafio do monólogo também me interessava artisticamente. Existe uma exposição muito grande em cena, mas ao mesmo tempo uma liberdade enorme. Você cria uma relação muito direta com a plateia. E eu sentia que essa história precisava justamente disso: dessa proximidade, quase como se aquela mulher estivesse compartilhando algo muito íntimo com quem está assistindo.

Como foi o trabalho de direção com Yara de Novaes?
A Yara é uma parceira de muitos anos e alguém em quem eu confio profundamente. A gente já dividiu muitos processos importantes no teatro e existe uma conexão muito grande entre nós. A Yara é uma atriz e uma diretora genial. E ela melhora a gente sempre. Como atriz, eu me senti muito bem acompanhada durante todo o processo, principalmente porque é um espetáculo muito exigente física e emocionalmente. Foi uma construção muito rigorosa, mas também muito delicada e livre.

Annelize Tozetto/Divulgação

A encenação costuma provocar ao final uma espécie de catarse no público, especialmente no feminino. Como você avalia essa reação? De que maneira o trabalho com essa produção afeta você e influenciou sua maneira de encarar as questões levantadas pelo texto?
Acho que essa reação acontece porque muitas mulheres reconhecem ali situações que fazem ou fizeram parte da vida delas, mesmo que em intensidades diferentes. O que mais me impressiona nestes dois anos de peça é perceber como muitas mulheres voltam para conversar depois da sessão ou mandam mensagens dividindo suas experiências. Isso acontece o tempo inteiro. Existe uma identificação muito forte. E claro que fazer esse espetáculo me transformou. Eu mergulhei em questões ligadas ao sistema jurídico, à violência de gênero e à maneira como a sociedade ainda olha para mulheres que denunciam abusos. Hoje eu sou muito mais consciente e sensível a esses temas. São assuntos que passaram a fazer parte da minha vida de uma forma muito intensa.

Além de muitas premiações para a autora Suzie Miller e para as montagens apresentadas mundo afora – inclusive para você e a produção brasileira –, Prima Facie tem alimentado o debate sobre o combate aos abusos contra a mulher em diversos âmbitos, do jurídico ao comportamental, passando pelo econômico e social. Como você avalia essa situação no Brasil, onde a violência feminina, o estupro e o feminicídio vêm crescendo, na contramão da diminuição de outros tipos de crimes?
É muito assustador perceber que os crimes contra mulheres continuam crescendo. Isso mostra que existe um problema estrutural muito profundo. A violência de gênero ainda faz parte de todas as camadas da sociedade. E muitas vezes ela acontece dentro de casa, em relações afetivas, em lugares onde a mulher deveria se sentir segura. O Brasil ainda é um país muito violento para mulheres. Ao mesmo tempo, acredito que hoje existe mais espaço para discussão. As mulheres falam mais, denunciam mais, se reconhecem mais umas nas outras. Temos leis muito importantes, como a Lei Maria da Penha, por exemplo. E a arte também pode colaborar nesse processo, criando reflexão, gerando conversa e aproximando as pessoas dessas experiências.

Amanda Freitas/Divulgação

Segundo especialistas, endurecer as penas para quem comete violências contra a mulher não é suficiente, teria de haver uma profunda mudança na cultura masculinista. O que você pensa a respeito disso?
Eu concordo. Claro que a punição é importante, mas sozinha ela não resolve um
problema que é cultural e histórico. A gente ainda educa homens e mulheres dentro de estruturas muito desiguais. Existe uma ideia de poder, posse e silenciamento que continua sendo reproduzida de várias maneiras, inclusive nas pequenas coisas do cotidiano. Por isso acho que a transformação passa pela educação, pelo debate, pela escuta e também pela forma como os homens se responsabilizam por essa discussão. Não é um assunto que diz respeito apenas às mulheres.

Quais são seus próximos trabalhos no teatro, no cinema e na televisão?
No teatro, sigo em turnê com Prima Facie, um espetáculo que continua muito
vivo para mim e encontrando públicos muito diversos pelo Brasil. No cinema, o ano passado foi um ano de muitas filmagens e agora começo a acompanhar os lançamentos desses trabalhos. Estou lançando recentemente 15 Dias, baseado no livro do Vitor Martins, um romance jovem muito bonito. Também estreio neste ano Pele de Rinoceronte, dirigido por Marcello Ludwig Maia, e A Cuidadora, dirigido por Fernando Fraiha. No teatro, também tenho alguns projetos ligados à direção teatral que devem acontecer no ano que vem e que têm me animado bastante. E na televisão existem algumas surpresas que ainda não posso contar, mas que em breve devem ser anunciadas.

João Caldas/Divulgação
Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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