Pular para o conteúdo

Entrevista com Lobo Antunes, o marginal integrado em seu território (Parte II)

O escritor português dá uma aula de literatura e história

Entrevista com Lobo Antunes, o marginal integrado em seu território (Parte II)
Lobo Antunes não tinha papas na língua, era um papa da língua/foto de Ana Cláudia Rodrigues

Antonio Lobo Antunes morreu em 5 de março deste ano. Foi um dos maiores escritores portugueses dos últimos cem anos. Em seu apartamento simples num prédio popular da avenida Afonso XIII, em Lisboa, numa tarde chuvosa de 1995, ele me recebeu para uma longa entrevista e revelou-se um lúcido e irônico sonhador. Nesta segunda parte, o escritor no seu contexto social, político e histórico. Para recordar e refletir.

JMS – Um dos seus personagens, em Memória de elefante, acredita que o álcool se tornou a única evasão possível. Analista de um mundo de desencantados e excluídos, o senhor, que execra a mediocridade e os túneis desertos que são os finais de semana, é um pessimista?

Lobo Antunes – Só mesmo um personagem, pois não bebo. Meu único vício é o cigarro. Todas as épocas são tristes e vivemos uma crise. Assistimos nos últimos anos à queda de uma série de mitos, do marxismo ao casamento e à família, e herdamos escombros de ideologias. Reencontrar o equilíbrio não tem sido fácil. Com o fim da ditadura em Portugal, da guerra colonial, dos campos de concentração, das prisões políticas e das utopias, as pessoas, por razões diferentes, ficaram sem referenciais, sem pai, sem mãe e na obrigação de fazer nascer as próprias raízes. Por outro lado, este é um país bom para viver, pulsante, e com muita coisa a escrever sobre ele. Na Suécia, por exemplo, ninguém pede esmola na rua, não há pobres, a gente fica perplexo. Em Portugal, como no Brasil, onde é possível encontrar gente muito rica e uma multidão de miseráveis, tem-se muita matéria para escrever. A indignação é possível. O meu sucesso na França faz-me sentir vingado, pois os franceses são chauvinistas e arrogantes com os pobres e desgraçados que vão para lá. Quando eles me cortejam, sinto-me a vingar uma quantidade de infelizes.

JMS – Portugal aparece nos seus livros como um país decadente e apegado ao passado colonial. O trabalho de luto ainda não terminou?

Lobo Antunes – A procura de Portugal é uma procura de mim mesmo, pois fui educado segundo os valores de Belém do Pará em Lisboa. A sociedade do norte do Brasil é mais austera do que a portuguesa. Trata-se da minha identidade pessoal. A geração anterior, na minha família, falava o português do Brasil. Essa fratura contribui para o trabalho do escritor. Há um cruzamento de culturas.

JMS – Quando o primeiro-ministro Cavaco e Silva diz “coitados de nós”, referindo-se a uma supostamente impossível venda de armas por Portugal a Angola, o senhor, em termos políticos, comprova o ocaso português retratado em seus romances e teme pelo futuro?

Lobo Antunes – Eu tive muitas esperanças com a Revolução dos Cravos. Saiu-se da ditadura de uma pessoa para a ditadura partidária. Foram criados partidos, copiados da França ou da Inglaterra, aos quais os homens devem adaptar-se, quando deveria ser o contrário. Portugal não teve tradição democrática ou partidária, mas comunalista, e essa situação ambígua produz uma ausência de identificação dos indivíduos com os partidos que devem representá-los. Os portugueses não queriam ser europeus e prefeririam, na altura da Revolução, criar uma comunidade com o Brasil, o norte da África e os países árabes que lhes estão próximos, com os quais há mais afinidades. Portugal segue assim, ligado a uma Europa com a qual não existe verdadeira integração, questão de cultura. Além disso, suportamos a hegemonia de um partido e a corrupção. Para o escritor é bom fazer parte de um país do Terceiro Mundo, pois é difícil encontrar um grande escritor em nações desenvolvidas.

JMS – Um mundo razoável, sem grandes diferenças sociais, seria ruim para os escritores do ponto de vista de material para literatura?

Lobo Antunes – Seria melhor para viver e pior para escrever.

Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

Todos os artigos
Tags:

Mais de Juremir Machado da Silva

Ver tudo