O historiador e professor da UFGRS Francisco Marshall e o escritor Nilson Luís May, com mediação do jornalista, advogado e também escritor Salus Loch, travaram um interessante diálogo na Casa da Palavra, encontros que ocorrem na sala Olga Reverbel, no Multipalco São Pedro, sobre livros que se inspiram em fatos reais ou que constroem um cenário histórico para ambientar o enredo contado.
Foi uma conversa cheia de erudição.
Marshall, especialista em Grécia antiga, recorreu a Aristóteles para lembrar que o historiador conta, em princípio, o que de fato aconteceu, enquanto o escritor narra o que poderia ter acontecido. May, autor de romances com fundo histórico, como Céus de Pindorama, defendeu o princípio de que o escritor de romances históricos pode fazer o que bem entender com seus personagens inventados, mas não com os reais, aqueles que, tendo existido, não podem ter as suas biografias modificadas a bel-prazer.
Diálogo desse tipo são muito úteis para quem escreve, pois apresentam a moldura que enquadra o trabalho de escritores. Cada autor delimita o seu campo de possibilidades, fixa as suas regras e compromete-se com um quadro mais amplo, o de certas regras do jogo capazes de ficar o famoso de pacto de leitura. É preciso que o leitor acredite ou finja acreditar para que funcione. May, grande conhecer da vida e da obra de Franz Kafka, lembrou uma frase do criador de Gregor Samsa: nada que não fosse literatura interessava ao escritor tcheco. Mais do que isso, tudo o aborrecia.
Escrever é algo que domina uma pessoa. May tem destacado o papel de quem, como ele, médico e escritor, tem dois campos de atuação. Não se trata de ter a literatura como um hobby, mas como uma segunda atividade, uma segunda profissão, uma segunda obrigação cotidiana implacável e exigente.
Há uma corrente atualmente que não crê em fatos reais. É uma crença. Como toda crença, não admite réplica. Muito menos descrença. Conheci um escritor que defendia a tese de que a literatura conta a verdade das coisas, enquanto a história seria sempre uma ficção mais ou menos realista. Vivemos um tempo estranho: os mesmos que combatem, com razão, as fake news, afirmam que não existe verdade e recusam qualquer exemplo nesse sentido.
Admirei as argumentações dos dois palestrantes. Havia elegância, cultura e exemplos instigantes no que diziam, união de experiência de vida e arte com conhecimento adquirido em outra atividade que não deixam margem para a dissidência: a leitura. Não pude ficar até o final. Mas saí suficiente alimentado de temas para reflexão sobre fato e ficção.
O que seria da rotina sem essas rupturas culturais?
A ficção é um fato na vida de quem não se contenta com o real.