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A indústria da toxina

Série na HBO acompanha jovens ambiciosos no mundo das finanças inglesas

A indústria da toxina
HBO/Divulgação

Industry terminou a quarta temporada e vai para a quinta e última na minha, na sua, na nossa HBO.  Criada por gente do ramo – ex-profissionais da área financeira –, Industry se beneficia e sofre deste mal de origem: foi feita por quem conhece o mundo dark das finanças mundiais e, apesar de conhecer bem, não consegue deixar de gostar, enquanto nos apresentam esse mundo em toda a sua indescritível toxidade. Sabem Chernobyl? Pois é. O mundo financeiro não é radioativo no sentido exato do termo, mas no resto, saiam da frente.

Industry conta a história de jovens lançados por vontade própria nesse covil, a City londrina pós-Brexit e durante a pandemia. É lá que a história começa, com o sistema financeiro ainda se retorcendo após a autoinduzida crise de 2008, aquela que quase corroeu o sistema financeiro como o conhecíamos. De lá pra cá, e de mudança pra valer, nada.

Industry é um tipo de parquinho onde jovens zillenials brincam com o nosso dinheiro, cheiram tudo que houver, e fazem sexo destrambelhado – quem começou a dirigir a série foi a Lena Dunham, criadora de Girls, e isso explica o tom de exagero estilizado e juvenil que marca a largada da série. Jovens de origens diferentes chegando ao mesmo lugar de partida, numa Inglaterra tão classista que universidades diferentes possuem sotaques e gravatas próprios, buscando o seu lugar no mundo e um apartamento em Notting Hill se possível, enquanto tentam navegar pelo universo antropofágico – figurativamente, ao que parece ⎯ de um banco de investimentos levemente inspirado no defunto J. P. Morgan, aqui chamado Pierpoint.

Eles representam setores dessa sociedade: uma garota rica, cujos pais esperam que ela pelo-amor-de-deus não fique servindo café para plebeus no novo local de trabalho; um garoto rico, cujo futuro inclui um lugar no Parlamento; um garoto branco, classe trabalhadora, que de alguma forma chegou a uma universidade garantidora do privilégio inglês, e uma americana. A série é da HBO e, portanto, uma americana se faz necessário – a jovem disposta a tudo para chegar ao que deseja, o que quer que isso seja.

Eles chegam, olham, tentam decodificar o sistema que os rodeia e fazem o que for preciso para serem contratados ao final do período de experiência, o que pode incluir trabalhar muito, dormir nunca, viver escondido em algum canto da empresa para não precisar ir e vir, e acordar morto, por excesso de fadiga e pílulas antifadiga. Acontece mesmo com um deles, que acaba não sendo contratado, exatamente por isso.

Industry se faz ver por vários motivos, porque queremos olhar de perto para o topo da pirâmide, porque queremos entender o que acontece lááááá onde o capitalismo se reproduz, porque queremos saber o que esses jovens pensam, enquanto eles cheiram o que não deviam e pensam em coisa alguma.

Se existe algo que une a todos, independentemente de sua classe de origem, é a absoluta falta de alguma coisa parecida com ética ou lealdade. A impressão é que eles não sabem tanto assim, mas sabem que vão trair o que quer que precisem trair para chegarem a algum lugar. Não se trata de crer, ou realizar, como forma de avanço pessoal e profissional. Trair é o que os faz dignos de serem parte daquele banco, daquele mundo. A questão é a quem, ou ao que, a cada episódio que vemos.

O que talvez falte na série, em se levando em conta que ela foi escrita por gente do ramo, é o ramo. Os personagens precisam provar valor para serem contratados, mas o que os faz seguir na Pierpoint não tem muito a ver com as entregas que eles realizam, que sequer sabemos quais sejam. A série é cuidadosamente realista nas cenas de sexo e nas cenas de uso de drogas, e curiosamente vaga com relação ao que eles fazem diante daqueles computadores todos, o tempo inteiro. Uma possibilidade é que, por conhecer o mundo financeiro, os autores da série saibam que ele é entediante, desinteressante ou tóxico demais para render uma narrativa atraente ou inspiradora. Aspiradora, e olhe lá.

Vendo Industry, lembrei de um tempo em que a minha empresa em São Paulo me alugava um flat em plena Faria Lima, coração financeiro da cidade. Por que eles faziam isso comigo, não faço ideia.

E todos os dias, mas todos mesmo, ao ir para o restaurante pro café da manhã, eu lembro de olhar ao redor e ver que todos, TODOS os demais hóspedes – gente que trabalhava na Faria Lima ou tinha reuniões por ali – vestiam camisa social azul. Eram homens, eram jovens e vestiam camisa social azul, sem ao menos se dar conta da esquisitice de tanta uniformidade.

Muitas vezes eu quase tive coragem de perguntar não se gostavam de azul, mas se não viam algo de estranho naquela monocromia toda.

Nunca perguntei, mas a resposta é clara. Eles nunca veriam nada de surpreendente no fato de parecerem iguais, por serem tão iguais, no coração, na alma, na camisa.

É isso que eu vejo quando vejo Industry. A igualdade implacável de quem se acha muito, mas muito maior do que nós, os de fato iguais.

Vejam, porque tudo isso faz parte da nossa época, e viver a época não é escolha, é destino. Eu, pelo menos, nunca, jamais vesti ou vestiria uma camisa social azul. Ao contrário deles, eu sei bem o que eu sou, e sei que somos muito, mas muito diferentes.

Por tudo isso, vão e vejam.

Industry passa na HBO, e vocês têm quatro temporadas pra se divertir. Fica a dica.

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