Como a vasta maioria de vocês, eu nunca fui a Saint Louis, Missouri. Como a maioria das pessoas com algum bom senso, eu provavelmente jamais vou planejar e realizar uma viagem a Saint Louis, Missouri, em parte por conta dos tempos trumpianos, em parte pelos mesmos motivos que me fazem jamais querer planejar e realizar uma viagem a Cuiabá, no Mato Grosso.
Algumas séries partem desse ponto, de nos narrar uma história que se passa em locais absolutamente desinteressantes para a maioria das pessoas ⎯ e o truque se torna provar que histórias interessantes podem acontecer em praticamente qualquer lugar do mundo, mesmo nos mais desinteressantes. Sabem Albuquerque, Novo México?
Pois agora Jason Bateman, o ator que brilhou na violenta série Ozark, que se passava no mesmo estado de Missouri, sai do mato e vai pra cidade viver um personagem mais tragicômico ⎯ símbolo do novo sujeito que emerge com a morte do american dream.
Disponível na HBO Max, a série DTF St. Louis parte desse universo desconhecido do Meio-Oeste sobre o Mississippi, e se desenrola pelo universo razoavelmente conhecido dos casamentos duráveis de pessoas que entram pra valer na segunda idade, aquela definida pela velocidade com que o colágeno abandona os humanos, uns mais, uns menos. E tudo inicia com dois personagens masculinos nessa idade fatídica, que se conhecem de forma acidental e desenvolvem aquela amizade tipicamente masculina, de silêncios compartilhados com prazer e conforto. No caso deles, um silêncio relativo, já que uma das primeiras revelações de um deles ao novo amigo é que ele sofre de uma doença ⎯ Doença de Peyronie ⎯ que faz o pênis ter uma curva de mais de 30 graus. Sério, existe nome técnico pra isso.
Entre uma confidência e outra, os amigos confessam que não sentem mais o mesmo tchans de outros tempos pelas suas respectivas esposas – how odd, how surprising –, sentimento esse que deve ser pra lá de compartilhado por elas.
A história então avança pra uma nova direção, com a proposta de que ambos ingressem no mundo novo do aplicativo DTF St. Louis, criado especialmente pra pessoas casadas que querem sexo com outras pessoas, enquanto permanecem casadas para sempre.
Sem querer avançar com algo que vira um spoiler já no primeiro episódio, digamos que o criador da série acredita em adicionar camadas de curiosidade ao que acontece, utilizando alguns estratagemas narrativos mais ou menos clássicos. Pra não avançar rumo ao spoiler, vamos andar de lado um pouco na direção do que efetivamente está acontecendo com os nossos personagens.
Os Estados Unidos são um país com uma construção muito particular, por mais que eles acreditem que representem praticamente o todo da humanidade ocidental. A sociedade americana é puritana na origem e rígida na prática. Os americanos recebem aulas de como se comportar e como se tornar um adulto funcional na escola, um microcosmo da sociedade para onde eles se deslocam após a formatura, o casamento com alguém da mesma idade – e que conheceram na escola ou universidade – e a compra de uma casa em algum subúrbio, onde todo mundo leva uma vida extrema, mas extremamente uniforme. Nessa sociedade pós-industrial, e ultra rica, a vida adulta se converte em um mundo materialmente organizado, onde você se encaixa, e não o contrário.
Não pode ser muito surpreendente que muitos americanos adultos sonhem com fugas. Pois essa série é mais ou menos sobre isso – além do sonho de fugir de um lugar insosso como Saint Louis, claro.
Os americanos sempre foram muito competentes em um sistema duplo de enaltecer e tirar sarro da vida americana, de forma alternada. DTF St. Louis é mais especializada na segunda parte, e faz isso com louvor, ao mesmo tempo em que olha com algum carinho para essa fase da vida em que a maioria dos humanos se dá conta de que já passaram da metade do caminho, e agora é rua abaixo. E, já que o fim é inevitável, quem sabe dá pra se divertir e fazer algumas bobagens com a energia que nos resta?
Eu já vejo a versão brasileira sendo criada neste exato instante pela Conspiração Filmes, intitulada DTF Curitiba. É só uma questão de tempo e, portanto, aguardemos.