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O horror de ser aia

As seis temporadas da série distópica "O Conto da Aia" estão na Netflix

O horror de ser aia
Netflix/Divulgação

Está em destaque na minha, na sua, na nossa Netflix uma das séries mais perturbadoras de todos os tempos, The Handmaid's Tale, ou, em linguagem de gente, O Conto da Aia.

Essa é daquelas séries que estragam o dia, a semana, e se der mole, o mês inteiro da gente – e, exatamente por ser o contrário de ruim, por ser ótima, mas apenas de um jeito muito duro de ser ótima: o que mais ou menos quer dizer que ela é, acima de tudo, verdadeira.

Na série, acontece mais ou menos o que está acontecendo: por vários motivos, a reprodução humana vira algo parecido com a dos pandas, ou seja, meio que inexistente. No caso dos pandas, as causas parecem ser falta de bambus, ou de montanhas onde crescem os bambus, ou de uma boa disposição para um sexo esperto depois do Fantástico, do jogo do Grêmio ou depois de algum outro momento igualmente erótico nas vidas de todos.

A solução, mais ou menos como sempre, é dar um jeito de culpar as mulheres pelo que acontece e inventar uma nova forma de opressão masculina sobre elas, utilizando algum livro religioso para justificar os abusos e excessos. Até aqui, nada de novo.

Inspirada no Irã de 1979, imagino, a escritora canadense Margaret Atwood criou o livro, The Handmaid's Tale, lançado em 1985. Ela viveu em Berlim nesses tempos, onde havia regularmente manifestações de iranianos exilados, nas quartas-feiras a favor da teocracia e nas quintas-feiras contra. Ou seria o inverso?

Eu lembro de uma iraniana me contando o que havia acontecido, e como a revolução, que todos os iranianos e todas as iranianas haviam apoiado para se livrar do horror do so calledReza Pahlevi, tinha se transformado na monstruosa república do Khomeini – ditador absolutista e com umas sobrancelhas horríveis. Ruim pra todos, muito pior para as mulheres.

No livro que Margaret Atwood escreveu – e na série criada a partir do livro –, uma epidemia e uma guerra civil transformam os Estados Unidos na República de Gilead – teocracia das mais despóticas. Nesta sociedade, as mulheres ainda férteis se tornam objetos de posse da elite – que vai poder ter filhos, ao contrário da plebe.

O argumento é distópico e duro – Ms. Atwood reconhece influências claras como 1984 (que acabei de traduzir e estragou o meu mês de fevereiro), Admirável Mundo Novo e outras pérolas da desconstrução do sonho humano sobre a Terra. As cenas não são menos duras, e por isso mesmo é um prazer sofrido navegar pela ficção de O Conto da Aia. Sofrido e muito, muito necessário.

Se uma coisa acontece no nosso mundo, é o aumento do fundamentalismo religioso em nossas sociedades – mesmo nas democracias ocidentais –, onde acreditávamos que esse mal era passado. No Brasil, o crescimento das seitas pentecostais cria zonas de atrito com a civilização a cada dia que passa.

No mundo islâmico não há muito o que dizer, a não ser que, em paraísos como a Arábia Saudita, o suave herdeiro do trono mostra como é um sujeito legal deixando as mulheres sauditas finalmente poderem fazer coisas radicais como dirigir um automóvel. E, nos Estados Unidos, o obscurantismo religioso se manifesta por todos os lados, e até na Suprema Corte, graças aos fanáticos indicados por Trump. As mulheres americanas perderam direitos duramente conquistados em décadas de luta, e nada garante que o processo esteja no fim.

Uma coisa que acontece ao longo da história da humanidade é que, em alguma época e em diferentes regiões do mundo, alguém recebe uma mensagem direta do Criador de todas as coisas, e logo depois escreve um livro a respeito. Os livros e algumas das ideias variam. O que nunca varia é que o receptor da mensagem divina é, invariavelmente, homem, e a mensagem recebida, de uma ou várias formas, oprime as mulheres.

Parecia que estávamos superando essas fases obscuras de nossa experiência sobre o planeta. Pois agora parece que não, que os riscos de retrocesso são reais, e por isso O Conto da Aia dói tanto.

É duro, é difícil, mas é necessário.

São seis temporadas.

Vejam.

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