Eu estou entre os descrentes de tudo que saiu da série de filmes Star Wars depois que a Disney chegou pra atrapalhar. Star Wars foi uma boa ideia, muito bem aproveitada nos três primeiros filmes. Depois disso, o que se viu foi uma corporação tentando chupar a laranja até muito depois de qualquer coisa com sabor restar ali dentro – com uma nobre exceção, na forma de The Mandalorian. Ali, algo aconteceu e um cara com real talento, Jon Favreau, assumiu o botequim, e a vida venceu.
Aconteceu algo similar com a excelente Game of Thrones. GoT foi gloriosa enquanto durou, e dureza quando o spin off – A Casa do Dragão – tentou ser mais do mesmo, com os resultados de costume. MAS, eis que neste ano surgiu o spin off que faltava, sendo uma brava evolução lateral – suficientemente diferente – na forma da prequel e intitulada O Cavaleiro dos Sete Reinos, na minha, na sua, na nossa HBO Max.
GoT causou porque era estranhamente terráquea, não sendo. Ela era humana pra caramba, e projetava uma era medieval sem pólvora e com papel, como se a China tivesse passado por lá e deixado algumas de suas invenções que a Europa ignorou enquanto pôde.
O bom em GoT sempre foi o fato de o cenário – essa Europa medieval em um planeta gêmeo e dotado de um inverno mais rigoroso que o terrestre – servir para grandes embates profundamente humanos. O cenário de ficção permitia tornar a realidade mais real – que é exatamente a função da ficção, quando se pensa nisso.
Mas – e isso deveria ter sido percebido –, se a vontade era de faturar uns dólares extra com a mesma laranja, GoT já tinha dado o que tinha pra dar, com seu arco extenso e repleto. Insistir em mais do mesmo era um erro, e foi.
O Cavaleiro dos Sete Reinos acerta por não insistir no erro – um bom começo, mas não garantia de sucesso. Ele começa cem anos antes de GoT, nos mesmos reinos, e sem dragões – o que melhora e muito a história. Como dizia Jorge Luis Borges, não é bom que coisas comecem a voar no meio do livro ou filme – não foi exatamente isso que ele disse, mas era sobre o Cem Anos de Solidão e era sobre esse princípio.
O Cavaleiro dos Sete Reinos traz vários elementos conhecidos e de sucesso em sua composição química – como o Coração de Cavaleiro, filme de justas medievais em formato pop com o Heath Ledger que deu muito certo, o excelente O Navegador: Uma Odisseia no Tempo, filme neozelandês de 1988, Robin e Marian, um belo Robin Hood de 1976, filme pequeno com elenco absurdo, e mais alguns filmes e séries com o mesmo tom de amargura diante dos destinos inevitáveis.
O Cavaleiro acerta porque faz a virada de eixo que tornou Downton Abbey um sucesso: ele sai do andar de cima e vai passear no andar de baixo, desistindo de se centrar nas grandes famílias de Westeros – ambente de GoT – para passear por onde andam os seres menos aristocráticos e mais humanos daquela Idade Média deles. Como mais uma inspiração, temos Dom Quixote: um cavaleiro de triste destino, ou que apanha muito enquanto cria o seu destino, e um escudeiro improvável e dotado de muita perspicácia e capacidade de expressão oral.
Na história, Sor Duncan, o Alto, um autoproclamado cavaleiro, e seu fiel escudeiro Egg, o Calvo, chegam a um vilarejo onde vai ocorrer o grande evento desportivo da Europa medieval: um campeonato de justas – aquelas corridas de cavalos em cancha reta com a inclusão de armaduras, lanças e fraturas múltiplas. Minha fonte sobre a Idade Média – e que recomendo a todos, Um Espelho Distante, da historiadora Barbara W. Tuchman – me garante que as justas eram o combinado de Copa do Mundo, GP de Fórmula 1 e campeonato de MMA daqueles tempos. Irresistíveis.
E, enquanto todos se preparam para assistir ao torneio, aprendemos sobre a trajetória de Sor Duncan, descobrimos quem é Egg, e somos apresentados aos Targaryen de antes da Daenerys.
O que é bom? O texto, estimados leitores. O texto. Como em GoT, o texto serve de raio-x da humanidade e suas contradições. Cru, duro, cômico, forte, inteligente, dizendo o que tem pra dizer nas linhas e entrelinhas. O texto, ele é tudo, e nele está a inteligência que torna essa série uma herdeira digna de GoT.
Nada de spoiler, apenas mais uma lembrança: tudo isso sobre o que falamos tem como origem Ivanhoé, de Sir Walter Scott, um clássico romance da cavalaria de 1819, enaltecendo os nobres cavaleiros como paradigmas da virtude e da luta pelos desprotegidos.
A cavalaria foi talvez o maior disparate ideológico de que se tem notícia – com os cavaleiros que supostamente representavam o que havia de elevado e nobre sendo, na prática, uns bolsonaristas dotados de exoesqueleto.
Se eu fosse vocês, nestes dias de frio, chuva, vento, ou tudo isso junto, eu veria.
Fica a dica.