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Vozes do que não podemos esquecer

Série "Vozes da Segunda Guerra" da Netflix é um documentário indispensável

Vozes do que não podemos esquecer
Netflix/Divulgação

Por força de vários hábitos, esta coluna costuma elaborar teses de impossível comprovação sobre séries ficcionais. As séries, como forma narrativa, se construíram sobre experimentos narrativos como Twin Peaks, The Sopranos, The Wire, inovações no sentido de trazer para a sua sala e sofá o que antes se via na sala de cinema, em uma hora e meia – histórias ficcionais, romances, dramas, comédias criadas por alguém, para alguéns. Os documentários nunca foram muito presentes no cinema, pelo motivo de que quem produzia cinema acreditava que o público queria ir ao cinema justamente para fugir da realidade por pelo menos aqueles cem minutos e sangue, suor, lágrimas e gargalhadas produzidas pela imaginação humana.

Mas, sempre houve, e sempre haverá o momento em que a realidade se faz ver, lembrar, inesquecer. Os documentários têm a sua mágica, exatamente por nos mostrarem e demonstrarem que existe sentido na vida, mesmo nos momentos mais sem sentido de nossa História.

E na nossa Netflix você encontra a série Vozes da Segunda Guerra, e eu ordeno, na minha condição de condutor desta coluna, que todos vocês assistam. Hoje. Se não der hoje, amanhã. Se não der amanhã, então hoje. Mas vejam.

O nosso mundo de hoje é definido pelo que o século 20 fez, mais a internet. E o século 20 foi definido por duas guerras de uma dimensão sem igual. Nunca houve nada igual antes, se espera que nunca aconteça algo sequer parecido de novo, nunca. A Primeira Guerra Mundial acabou com o mundo do século 19, com o mundo da tração animal, das tradições aristocráticas, e criou fronteiras que até hoje atormentam boa parte da humanidade. E a necessidade de passaporte pra poder viajar. Ela também criou um enorme trauma com respeito à tecnologia e a sua capacidade industrial de eliminar gente em uma escala que deixaria Átila morto de inveja.

A Segunda Guerra Mundial se fez e faz presente pela sua capacidade de conseguir ser ainda pior do que a Primeira, em parte, por ter líderes ainda mais malucos, que criaram regimes como o fascista na Itália, o nazista na Alemanha e seu contraponto russo, o stalinismo. A Primeira Guerra foi governada por velhos aristocratas europeus, que enviaram milhões de jovens pobres para morrer nas trincheiras. A Segunda foi conduzida por psicopatas sem muita consciência de classe, mas com uma disposição sem igual para acabar com todas as classes dos inimigos. Pela primeira vez se fez guerra total e de extermínio.

Como toda a catástrofe, uma vez que ela não acabou com a humanidade, ela criou uma nova humanidade, com uma forte capacidade de reconhecer, reagir e eliminar os efeitos mais destrutivos que havia vivenciado. Aprendemos a renegar o discurso nazista e lutar contra o racismo e a xenofobia, a não dar mole para ditadores e a aceitar limites para o que somos capazes de fazer. Em toda a Segunda Guerra nenhum dos lados usou os gases venenosos da Primeira, banidos e realmente não utilizados. Terminamos a guerra com a imagem horrível dos campos de extermínio, que nunca mais foram tratados como menos do que barbárie, e com uma explosão atômica – duas, que mostraram que era preciso respeitar limites, ou a humanidade sumiria do planeta.

Até agora, ninguém mais ousou ir tão longe quanto o que foi feito na Segunda Guerra, e ninguém usou armas nucleares. Ainda.

Essas lembranças evitaram o pior. Aprendemos e seguimos mantendo o mínimo básico de comportamento capaz de não destruir o mundo por meios militares. Aprendemos a denunciar o fascismo, sempre ele aparece – e ele aparece, ô, se aparece. Aprendemos a suspeitar dos populistas salvadores da pátria, mesmo que muitos estejam por aí. Aprendemos que a única forma de organizar uma sociedade moderna é a democracia, e mais ou menos lutamos por isso, desde então.

Mas, a Segunda Guerra terminou em 1945, e a Guerra Fria em 1989, e tudo isso começa a se afastar demais. O perigo é esse, que toda essa bagagem acumulada e essencial se perca com a distância e o tempo. Que as novas gerações não saibam o que tornou o mundo mais possível e seguro, desde a hecatombe do século passado.

Aqui em casa a gente leva tudo isso muito a sério, e eu me dei conta de o quanto quando meu filho deu uma aula sobre Stalingrado no quinto ano. E eu vejo com ele esses documentários e conversamos o tempo todo. O conhecimento, como dizia o extraterrestre Bilu, faz diferença.

Por tudo isso, vejam Vozes da Segunda Guerra. Se se entusiasmarem, vejam as séries Band of Brothers e The Pacific. É o lado americano, mas é importante ver. Do lado russo, tentem ver o fime Vá e Veja, do Elem Klimov.

Mas, por conta desta coluna, parem tudo, peguem uma caixa de lenços de papel e alguma bebida de alta octanagem e vejam Vozes da Segunda Guerra. Ver é muito, mas muito necessário.

Isto é uma ordem.

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