Não sei que memórias os meus ilustres leitores têm da infância querida, aurora das suas vidas, mas eu passei bons momentos na Biblioteca Pública, aquela lindona do Centro de Porto Alegre. Eu não morava em Porto Alegre, mas a minha avó Jovita, a Terrível, morava, e perto da Praça da Matriz – tão perto que até a biblioteca eu e meus 11 anos tínhamos permissão para ir sem adultos incomodando. E não era na bibliotecona propriamente dita, mas numa porta ao lado, onde ficava a Biblioteca Juvenil – era lá que eu passava dias felizes de nossas vidas. E foi lá que eu conheci um livro de uma americana chamada Laura Ingalls Wilder, e o livro se chamava Uma Casa na Campina.
O livro narrava, em tom pastoral, a saga da conquista do Oeste Americano, com aqueles pioneiros todos e suas carroças sacudindo pelos vastos espaços da América do Norte até as terras que o governo havia concedido a quem para lá quisesse ir, sem consultar os donos originais, os indígenas americanos, claro.
Eu, criança brasileira, lia com espanto as aventuras narradas pela menina Laura. Ela, Pa, Ma e a irmã Mary viviam em uma pequena casa feita de troncos de madeira em algum lugar remoto, onde coisas inacreditáveis ou surpreendentes (para mim, aos 11) não paravam de acontecer.
As surpresas eram muitas, e várias delas não tinham a ver com o argumento, os personagens ou a narrativa. Eram choques culturais e temporais, de um menino que não fazia ideia de como a vida no século 19 podia ser tão diferente da que ele conhecia. Em um momento, ele descobria que no mundo da Laura Ingalls crianças não bebiam café – algo mais ou menos aceitável no Brasil do século 12, minha infância. Ela também me informou que “crianças eram para ser vistas, e não ouvidas”, algo que nunca iria funcionar lá na minha casa.
Era surpreendente ler quando ela dizia que o Pa tinha ido até a vila, uns 30 quilômetros de distância, e que isso levava DOIS dias. E que coisas como vidros para as janelas e açúcar eram luxos para a Laura.
Havia uma parte mais complicada, em que ela narrava os encontros deles com os indígenas, que apenas por serem os donos originais daquela terra toda insistiam em não desaparecer.
Anos mais tarde eu fui viver nos Estados Unidos, na região em que os livros dela se passavam, mais o menos (Illinois e Wisconsin), e tive a chance de visitar vilas mantidas do jeito que as coisas eram naquele tempo – americanos adoram o passado, especialmente se ele estiver em uma versão edulcorada e limpinha de fatos desagradáveis.
E saibam que fiz toda essa introdução para informar que a Netflix lançou a série baseada nessa história, e ela está bombando, com o título Uma Casa na Pradaria. O livro se chama Little House on the Prairie – escolham vocês o nome que parecer mais adequado.
Já houve uma série de tevê nos anos 1970 (os livros são da década de 1930), e a atual se mostra mais sensível para a realidade e oferece um tratamento levemente mais justo quando se refere aos grandes perdedores nesse processo histórico. Em um momento, Pa Ingalls reclama a um amigo indígena civilizado em uma missão cristã que “indígenas entraram na casa dele sem ser convidados e pegaram o que não era deles”. O indígena civilizado gentilmente lembra Pa Ingalls que isso descreve exatamente o que os brancos estão fazendo por toda parte.
Veja, e pensem que tudo isso aconteceu no Brasil do século 19 também, de outros jeitos. Nos anos 1850, o Brasil distribuiu terras a quem pudesse comprar, o que deixou de fora todos que não fossem alguns brancos de posses – o que até hoje nos marca. Mas o Brasil deu terras a pessoas que não precisavam comprar, desde que não fossem brasileiras, e foi assim que vastas áreas do Sul do país foram ocupadas.
Cada um de nós tem histórias como as de Laura Ingalls, apenas não sabemos delas, porque nunca nos debruçamos o suficiente, ou nunca houve uma Laura Ingalls brasileira.
Eu teria gostado muito de saber como os Carneiro da Cunha fizeram para vir de Portugal até o Recife, em 1640, e de lá até a fronteira do RS com o Uruguai, nos anos 1850. A nossa literatura e o nosso audiovisual nunca nos deram isso, pra valer. O Tempo e o Vento traça um pouco do que houve, mas a nossa história é como se não houvesse, a não ser naquela dos grandes momentos pátrios. Pena.
Por hora, vejam A Casa na Pradaria. Foi assim, ou com variações, que o Novo Mundo se fez, nas Américas e na Oceania. Foi mais ou menos assim, em variações sobre o tema, que nossos antepassados fizeram para vir dos seus continentes para cá.
Vejam.
Fica a dica.