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'AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo' investiga os limites do olhar

Novo espetáculo da Cia. Reverbo transforma a audiodescrição em dispositivo dramatúrgico para refletir sobre percepção, invisibilidades e conflitos humanos a partir de relatos de pessoas com deficiência visua

'AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo'  investiga os limites do olhar
Foto: Divulgação

Cia. Reverbo estreia, em agosto, em Porto Alegre, o espetáculo AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo', uma criação que investiga as fraturas invisíveis da experiência humana em um mundo marcado pelo excesso de imagens, pela disputa de narrativas e pela dificuldade de apreender a realidade. Com direção e dramaturgia de Clóvis Massa, a montagem parte de relatos reais de pessoas com deficiência visual para tensionar a relação entre aquilo que é visto, aquilo que permanece oculto e aquilo que, por conveniência, escolhemos não enxergar.

A primeira temporada acontece no Teatro de Câmara Túlio Piva, de 7 a 16 de agosto, às sextas e aos sábados às 20h, e aos domingos, às 19h. Em seguida, o espetáculo segue para o Teatro Bruno Kiefer, na Casa de Cultura Mario Quintana, onde será apresentado de 28 a 30 de agosto, sexta e sábado, às 19h, e no domingo, às 18h. Cada temporada contará com uma sessão acessível: no dia 8 de agosto, no Teatro de Câmara Túlio Piva, haverá audiodescrição; no dia 29 de agosto, no Teatro Bruno Kiefer, haverá audiodescrição e interpretação em Libras.

Em seu novo trabalho de Teatro de Testemunho, a Cia. Reverbo transforma a audiodescrição - originalmente compreendida como recurso de acessibilidade - em elemento poético e estruturante da dramaturgia. Em cena, a palavra que descreve a imagem deixa de ser apenas uma tradução do visível e passa a operar como mecanismo de criação, revelando também os limites, as falhas e as contradições dos modos como percebemos o mundo.

'AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo' nasce da pergunta: o que acontece quando não podemos mais confiar naquilo que nossos olhos percebem? Ao deslocar a experiência da deficiência visual para o centro da investigação artística, o espetáculo não trata apenas da ausência da visão, mas dos diferentes pontos cegos que atravessam as relações humanas, os conflitos sociais e a própria construção da verdade contemporânea.

A concepção dramatúrgica reúne em cena três artistas que também atuam como profissionais da audiodescrição: Letícia SchwartzRafael Braz e Rodrigo Teixeira. O elenco compartilha narrativas, personagens e testemunhos em uma estrutura cênica em que narrar e atuar são ações permanentemente atravessadas.

A trajetória do elenco, seus corpos e sua pesquisa estão intimamente ligados às vivências com a deficiência visual e com a audiodescrição - recurso de acessibilidade comunicacional voltado para pessoas cegas ou com baixa visão. Ao longo do espetáculo, algumas vezes aquilo que é visto em cena também será descrito, como um mote dramatúrgico provocado pela audiodescrição, transformando-a no coração poético e dramatúrgico da nossa cena. Às vezes confirmarão o que os olhos veem. Outras vezes, convidarão o público a perceber o que eles deixam escapar.

"Como dramaturgo, optei por fundir diferentes narrativas para construir os personagens. O espetáculo articula testemunho e ficção porque me interessava criar histórias que ultrapassassem a experiência individual e alcançassem uma dimensão universal. O que está em cena não é a visão, ou a ausência dela, nas pessoas com deficiência visual, mas os pontos cegos da existência: aquilo que qualquer um de nós não consegue ou, muitas vezes, prefere não enxergar", afirma Clóvis Massa.

Para ampliar essa reflexão, o diretor recorreu ainda ao procedimento da intertextualidade. O espetáculo estabelece diálogos com diferentes referências literárias e dramatúrgicas, acrescentando novas camadas de sentido à narrativa e ampliando as possibilidades de leitura da obra.

Parceria consolidada

A montagem consolida a parceria artística entre o diretor e dramaturgo Clóvis Massa, professor titular do Departamento de Arte Dramática e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS, e os integrantes da Mil Palavras Acessibilidade Cultural. A colaboração teve início em 2020, com o audiodrama 'Desmemórias', criação sonora que utilizou trechos de uma entrevista concedida em 1997 pela avó de Letícia Schwartz, que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, à USC Shoah Foundation, construindo uma narrativa sobre memória, testemunho e diálogo entre gerações.

Em 2023, essa trajetória resultou no espetáculo teatral 'Raiz Amarga - Por que esta noite é diferente de todas as outras?', criação que articulou memórias autobiográficas de Letícia Schwartz ao ritual do Pessach judaico. A montagem, que contou com a presença da atriz Arlete Cunha, recebeu reconhecimento da crítica e foi vencedora do Prêmio Açorianos de Teatro nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção (Clóvis Massa), Melhor Atriz (Letícia Schwartz), Melhor Dramaturgia (Clóvis Massa e Letícia Schwartz) e Melhor Cenografia.

Agora, com 'AUTODescrição - Tudo o que eu não vejo', essa parceria aprofunda a pesquisa sobre criação cênica, testemunho e memória, incorporando a acessibilidade como campo de invenção artística. A obra reafirma o compromisso da Cia. Reverbo com uma cena capaz de ampliar formas de escuta, percepção e encontro.

Links da venda dos ingressos na Sympla:

Teatro de Câmara Túlio Piva: https://bileto.sympla.com.br/event/123858

Teatro Bruno Kiefer: https://www.sympla.com.br/evento/autodescricao-tudo-o-que-eu-nao-vejo/3511965?share_id=copiarlink

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