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Coletivo preserva a memória urbana de Porto Alegre com desenhos

Em 14 de fevereiro, grupo Urban Sketchers se reuniu para desenhar casarões no bairro Rio Branco durante sua demolição

Coletivo preserva a memória urbana de Porto Alegre com desenhos
Foto: Usk POA

Mobilizados pela demolição de mais um imóvel no bairro Rio Branco, integrantes do grupo Urban Sketchers (Usk) se reuniram em uma calçada da rua Ramiro Barcelos, munidos de papel, pincéis e aquarelas. O encontro com o tema “Desenhe antes que destruam: se a cidade insiste em derrubar, a gente insiste em registrar”, realizado em 14 de fevereiro, repercutiu nas redes sociais e despertou debates sobre a preservação da memória arquitetônica de Porto Alegre.

A partir da ideia da artista Tina Perrone, o coletivo se mobilizou para retratar o último dia das casas antes da demolição, mas, quando chegaram, o processo de derrubada já havia começado com antecedência, e os desenhos foram sobre as construções indo abaixo. “As pessoas que passavam pela rua e nos viam desenhando perceberam os tapumes pela primeira vez. Muitas moravam na região e não tinham conhecimento de que seria demolido”, comenta Veronica Daudt, uma das coordenadoras e fundadoras do projeto.

Daudt acrescenta que, além de um momento de registro, foi um espaço de desabafo sobre as mudanças. “Perceber as pessoas comentando o que elas sentem da demolição, o que elas sentem do patrimônio e da preservação de onde moramos, tudo foi bastante potencializado.” 

Comunidade internacional

O Urban Sketchers é uma organização sem fins lucrativos com a proposta de formar uma comunidade internacional de desenhistas em modelo sketching (esboço ou rascunho, em inglês), a arte de fazer esboços rápidos e espontâneos, capturando o que se vê no momento, sem preocupação com perfeição ou detalhes minuciosos, diferente do desenho técnico. O foco está na representação imediata do que se vê no dia a dia urbano: ruas movimentadas, mercados, cafés, praças, prédios antigos e novos.

O movimento iniciou em 2007, a partir de um blog de desenho criado pelo jornalista e ilustrador espanhol Gabriel Campanario, baseado nos Estados Unidos. No Brasil, teve início em 2011, com os ilustradores Eduardo Bajzek, Juliana Russo e João Pinheiro, que fundaram o Urban Sketchers Brasil, com sede em São Paulo. Hoje, existem 41 grupos oficiais filiados no país, sendo cinco deles no Rio Grande do Sul. 

Além dos encontros locais, o grupo também participa de encontros regionais e nacionais promovidos pelo Urban Sketchers, que reúnem desenhistas de diferentes cidades para compartilhar experiências, técnicas e olhares sobre os cenários urbanos. Esses eventos fortalecem o senso de pertencimento a uma comunidade maior, ampliam as trocas entre participantes e reforçam o caráter colaborativo do movimento.

II Encontro Regional USk Brasil Sul em Curitiba 2025. Foto oficial e Grupo do USk POA

Em Porto Alegre, os encontros tiveram início em 2016, com um grupo de aulas de aquarela. Veronica Daudt e Sonia Benedetto, que hoje integram a coordenação do Usk na capital gaúcha com Ronaldo Mohr, participavam dos encontros de pintura e decidiram dar origem ao projeto filiado. Já foram realizados 107 encontros oficiais.

Preservar a memória coletiva

Nos encontros quinzenais do Usk Poa, os participantes observam a cidade com uma lente desacelerada, buscando perceber aquilo que está em processo de transformação. O que hoje é cotidiano, amanhã pode ser lembrança, e os desenhos se tornam arquivos sensíveis da memória urbana. 

Ao ocupar praças, mercados, centros históricos e bairros afastados, os integrantes do movimento criam uma rede que vai além do papel. “Estamos falando de desenhos, mas no fim tudo é sobre as pessoas, o vínculo que criamos com elas, com os lugares a partir desses encontros e a arte como cola de tudo”, disse Mohr.

Segundo Daudt, o objetivo é desenhar a cidade de forma coletiva e gratuita, frequentar e representar espaços em um momento no tempo e formar uma comunidade de acolhimento por meio da arte. “Não há qualquer forma de competitividade nos encontros, cada um tem uma técnica e um olhar diferente e todos são bem-vindos", comenta. “A missão e valores da comunidade é ser inclusiva, democrática e que os membros apoiem uns aos outros”, afirma o arquiteto brasileiro Ronaldo Kurita, atual presidente da organização internacional. 

Segundo Kurita, muitas conexões novas são proporcionadas entre os membros do grupo. Professores e artistas mais experientes compartilham conhecimentos ou servem de inspiração apenas pelo fato de desenhar juntos. “Proporcionamos uma atividade que pode ser também social, educativa e de lazer. Para mim, acima do fator artístico, o fator de construção de uma comunidade é o melhor resultado dessa conexão”, disse. 

Participantes carimbando seu desenho com os carimbos da Usk Poa. Foto: Usk Poa

Ao desenhar juntos, os integrantes recriam o mapa da sua própria cidade com lugares que desconheciam ou que apenas não notavam, um mapa que não se limita à cartografia oficial, mas que registra o ambiente em um momento do tempo. A prática de observar com atenção ressignifica o espaço urbano e permite que cada participante se reconheça como parte ativa da paisagem.

Ao final de cada encontro, os artistas colocam todos os desenhos no chão e avaliam os resultados. “Há pessoas que desenham os prédios inteiros, outras que desenham partes da fachada, objetos próximos e pessoas passando. Cada um se atém a algum detalhe, a alguma parcela, e a fotografia do todo é o espírito do momento”, comenta Mohr. 

Mariana Dawas

Estagiária de jornalismo. Formada em Relações Internacionais pela PUC-RS, estudante de Jornalismo na UFRGS e fotógrafa freelancer. Contato: mariana@matinal.org

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