“Como foi que eu cheguei até aqui?” é a pergunta que atravessa o álbum Preta Gaúcha, que será lançado nesta sexta-feira (8/5) nas plataformas digitais por Loma Solaris. O trabalho reúne composições da artista e parcerias com músicos que participaram dos mais de 50 anos de carreira da cantora, um dos nomes fundamentais da música do estado.
“Quis fazer um trabalho rico de conteúdo cultural e popular com o que apurei das questões rítmicas afro-gaúchas, afro-açorianas e afro-litorâneas e também do nativismo”, explica a cantora e compositora à Matinal, em uma conversa sobre sua trajetória a partir das faixas que compõem Preta Gaúcha, que mescla ritmos que vão da valsa à chacarera, passando pela milonga e pelo boi da praia – similar ao maracatu pernambucano.
Em Cantigas de Mar, de Carlos Catuípe e Ivo Ladislau, Loma lança um olhar para o convívio entre africanos escravizados e açorianos no litoral gaúcho, a partir do século 18, marcado por intensas trocas culturais entre tradições, como nos rituais afro-católicos do quicumbi e maçambique.
“Conheci o Ladislau e o Catuípe fazendo maçambique no Festival da Moenda. Achei a batida interessante, me aproximei, eles gostaram do meu canto e passaram a me conceder obras no início dos anos 1990, firmadas nos ritmos quicumbi, maçambique e afro-açorianos, células com as quais me identifiquei de pronto. É uma cultura que venho divulgando há mais de 35 anos, com a bênção da Rainha Ginga e do Rei do Congo”, destaca a artista, que disseminou a música afro-litorânea do estado em festivais nativistas, não raro sendo a única artista negra a participar desses eventos.
“Fui muito bem recebida por compositores como Telmo de Lima Freitas, José Hilário Retamozo e Luiz Carlos Borges”, recorda Loma, conectando as influências de matriz africana e nativistas que marcaram sua trajetória. A comemoração dos 50 anos desse percurso, em 2023, teve show dirigido pela instrumentista e compositora Tamiris Duarte, diretora musical de Preta Gaúcha, viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc.
“Meu principal objetivo foi sempre materializar as ideias da Loma, respeitando e valorizando a trajetória e experiência dela, tendo como bandeira a afirmação e o fortalecimento da identidade negra gaúcha. Trabalhei em parceria com os arranjadores convidados e assino três arranjos do álbum marcados pela forte presença da percussão e dos ritmos populares – minha área de pesquisa na música há mais de 10 anos”, conta Tamiris. Parte do álbum foi gravado e mixado por Wagner Lagemann no estúdio do coletivo Pedra Redonda, do qual Tamiris faz parte.
Em busca das raízes

Nascida em Recife no ano de 1953, Loma migrou para Porto Alegre quando era bebê. Aos 12 anos, já cantava no coral de uma escola e participava da execução da ópera Aida, de Verdi, no Auditório Araújo Vianna. Adolescente, gravou jingles e participou de programas infantis. Aos 19 anos, ingressou no Grupo Pentagrama, que circulou pelo estado até 1976 – ano em que a banda lançou seu único disco e encerrou suas atividades.
Iniciando carreira solo no final dos anos 1970, Loma estudou música na capital fluminense e conheceu outras regiões do Brasil. “Quando fui para o Rio de Janeiro, comecei a conhecer várias culturas regionais. Viajei com Amelinha e Zé Ramalho pelo Nordeste e encontrei uma preservação forte das culturas locais. Isso me despertou a atenção para o meu estado e principalmente minha raiz negra”, afirma a cantora, que retornou ao Rio Grande do Sul nos anos 1980 – decidida a interpretar exclusivamente compositores gaúchos – e consolidou sua presença na música regional ao longo das décadas seguintes.
“Dos anos de 1910 até os de 1950, dá pra traçar fácil uma linha de grandes cantoras porto-alegrenses, escolhendo uma por década de nascimento: Horacina Corrêa (1913), Zilah Machado (1928), Lourdes Rodrigues (1938), Elis Regina (1945) e, em 24 de abril de 1953… Loma Berenice Gomes Pereira. Com exceção de Elis, todas pretas”, destaca o músico e pesquisador Arthur de Faria em uma série de textos sobre Loma publicados na Parêntese – que em 2021 também entrevistou a artista.
Em Preta Gaúcha, Loma dialoga com outro expoente da cultura negra estadual e nacional: Oliveira Silveira, idealizador do Dia da Consciência Negra e autor do poema O Trigo. “Natural de Rosário do Sul, o mestre Oliveira Silveira pôde conhecer a lida dos pretos nos campos daquela região e escreveu esse poema musicado por Vladimir Rodrigues, que nos conta dos corpos escravizados nas plantações de trigo. Registro esta canção em meu álbum como forma de reflexão”, diz Loma.
Soltas Velas, composição de René Duque e Loma, ganhou arranjo em forma de ijexá, concebido por Tamiris. “René se inspirou na paisagem em que se via barcos movidos à vela, conduzidos por pescadores nativos e de outras paragens brasileiras, oferecendo um quadro de natureza viva das águas do lugar. Os botos, parceiros de lida, promoviam um espetáculo natural”, ressalta Loma.
Gira das Ialodês é fruto dos encontros do grupo Ialodê – formado por Loma, Marietti Fialho, Glau Barros e Nina Fola – com a cantora Thalma de Freitas para uma apresentação na Mostra Internacional de Arte Contemporânea (MIAC), no Farol Santander, em 2025. “Decidi compor uma letra sem ser óbvia ou literal sobre a violência contra a mulher, que avança nos dias atuais como um quadro grotesco e doloroso de se ver. A letra veio numa sentada e a Thalma compôs a música em poucos dias.”
Álbum de memórias
Loma Solaris – que já assinou suas obras com o sobrenome Pereira e somente com o primeiro nome – destaca ainda Caminhada, de Sergio Rojas e Colmar Duarte, como uma das faixas mais representativas de Preta Gaúcha. “Essa música norteou minha vida no sentido da busca interior. Um poema belíssimo que conta a história dos carreteiros (transportadores de cargas em carretas de bois) com uma veia poética linda. Toda a infância morei perto do mar, mas a vivência no interior do Rio Grande do Sul também foi maravilhosa. Presenciei carreteiros passando na minha rua de estrada de chão. Nos escondíamos e pulávamos nas carrocerias.”
Em meio a memórias da infância, na conversa com a Matinal, Loma recorda que, no início da carreira, enviava LPs pelo correio e levava outros tantos de ônibus em visitas a rádios pelo país – estimulada pelo produtor cultural Ayrton dos Anjos, o Patineti, falecido em 2024. Também traz lembranças da amizade com Jerônimo Jardim (1944 – 2023), com quem assistiu ao show de lançamento do álbum Saudade do Brasil, de Elis Regina, no Rio de Janeiro, e de reconhecimentos marcantes, como o Troféu Melhor Cantora da Década, concedido pelo Instituto Gaúcho da Tradição Folclórica.
Essa constelação de encontros, ritmos e memórias resulta em Preta Gaúcha, que já tem shows agendados para os dias 20 de junho, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, e 12 de julho, no festival Virada das Águas, em São Leopoldo.