Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

“Manas” denuncia o abuso de meninas e mulheres no Norte do Brasil

“Manas” denuncia o abuso de meninas e mulheres no Norte do Brasil
Foto: Paris Filmes

Primeiro longa de ficção da diretora e roteirista Marianna Brennand, Manas (2024) teve première mundial no Festival de Veneza em agosto do ano passado e desde então já ganhou mais de 20 prêmios. Rodado na região amazônica, o filme conta a história de uma adolescente que decide enfrentar a engrenagem violenta que rege sua família e as mulheres da comunidade onde vive.

Em Manas, a menina de 13 anos Marcielle (Jamilli Correa) mora em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, na Pará, com o pai (Rômulo Braga), a mãe (Fátima Macedo) e três irmãos. Instigada pelas falas da jovem mãe ⎯ que está mais uma vez grávida ⎯, ela cultua a imagem de Claudinha, a irmã mais velha, que teria partido para longe após “arrumar um homem bom” nas balsas que passam pela região. Conforme amadurece, Tielle ⎯ como a garota é apelidada ⎯ vê suas idealizações ruírem, presa em uma realidade patriarcal e sem perspectivas para as mulheres. Percebendo que o futuro não lhe reserva muitas opções, a jovem decide confrontar o pai abusador e o destino de submissão que lhe é reservado.

A ideia inicial para a realização do filme surgiu quando Marianna Brennand tomou conhecimento de casos de exploração sexual de crianças nas balsas do rio Tajapuru, na Ilha do Marajó. Primeiramente, havia a intenção de realizar um documentário, gênero no qual a cineasta atuava ⎯ mas logo essa ideia foi abandonada.

“No início da pesquisa, me deparei com uma questão ética muito séria. Era inaceitável para mim como documentarista colocar à frente da câmera crianças, adolescentes e mulheres para recontarem situações de abuso pelas quais haviam passado. Seria cometer mais uma violência contra elas. É um tema muito duro e complexo. O desafio era retratar não só uma dor física e emocional, mas também existencial, e isso foi algo que a ficção me permitiu trabalhar. Busquei estabelecer uma espécie de mergulho sensorial que conectasse o espectador à experiência emocional da Marcielle. Eu optei por fincar o filme, em todos os seus aspectos, em um naturalismo que se liga ao documental, abrindo mão de qualquer artifício que pudesse desviar da vivência dela e de seu emocional”, explica a cineasta.

O cineasta Walter Salles ⎯ que recentemente conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui (2024) ⎯ e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, diretores belgas vencedores de duas Palmas de Ouro no Festival de Cannes, atuaram como produtores associados do filme. Os realizadores apostaram no projeto desde a fase de roteiro, contribuindo significativamente para a sua realização.

“A narrativa é ao mesmo tempo sensorial e emocional, os atores são cativantes e a direção é inspirada, precisa e desprovida de sentimentalismo. Marianna nos oferece a possibilidade de mergulhar em um mundo que ainda não havíamos visto, trazendo luz aos seus demônios internos”, elogia Salles. Luc Dardenne endossa o colega brasileiro: “Sua abordagem da vida de uma jovem e sua família no Norte do Brasil revela a existência de uma comunidade, de uma sociedade em que a longa história de dominação masculina está violentamente inscrita nos corpos das mulheres”.

Diretora do documentário Francisco Brennand (2012), sobre o famoso tio-avô artista visual pernambucano, Marianna Brennand estreia no longa de ficção com segurança, delicadeza e sobriedade, evitando a exposição explícita da violência e a exploração do corpo feminino ao abordar um mundo rude e por vezes cruel.

A estreante Jamilli Correa impressiona com a força de sua atuação, expressando com verossimilhança tanto a determinação quanto a ingenuidade da jovem protagonista em suas descobertas e decepções. Merecem destaque também as atuações de Rômulo Braga e Fátima Macedo como o casal de pais que perpetua uma perversa tradição de abuso doméstico, e de Dira Paes no papel de uma policial.

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

Todos os artigos

Mais em Cultura

Ver tudo

Mais de Roger Lerina

Ver tudo