A decisão da CBF de proibir canais de YouTube e web rádios de mostrarem a imagem de seus narradores dentro dos estádios é um abuso. Não é modernização, não é organização, não é proteção de direitos. É controle. E, pior do que isso, é controle sem base legal clara.
O direito de arena protege a imagem do espetáculo, não a imagem do jornalista. Protege o jogo, não o narrador. O campo, não a cabine. Um profissional falando diante de uma câmera, dentro do espaço destinado à imprensa, não está explorando comercialmente o evento. Está trabalhando. Está exercendo sua função. Está fazendo jornalismo.
A CBF sabe disso. E é exatamente por saber disso que a decisão causa ainda mais preocupação.
O que está em jogo não é a legalidade, é o poder. Durante décadas, o rádio foi soberano. Depois veio a televisão. Agora, surgiram os canais digitais, os narradores independentes, as transmissões pelo YouTube, os comunicadores que construíram sua própria audiência sem depender de grandes grupos. Isso mudou o equilíbrio do jogo. Democratizou o acesso. Tirou o monopólio das transmissões.
E isso incomoda.
Porque, pela primeira vez, um narrador com talento, credibilidade e conexão com o público pode competir em igualdade de condições. Sem precisar de uma concessão estatal. Sem precisar de uma estrutura milionária. Basta um microfone, uma câmera e competência.
É isso que está sendo atacado.
Não é coincidência que a proibição seja sobre imagem. O áudio continua permitido. Porque o áudio, sozinho, tem menos impacto comercial. O vídeo aproxima. O vídeo cria identidade. O vídeo constrói marca. O vídeo transforma o narrador em protagonista, não apenas em voz de fundo.
É disso que eles têm medo. Da perda de controle. Da concorrência real.
Por isso, as entidades que representam os cronistas esportivos precisam agir imediatamente. A ACEG, no Rio Grande do Sul, e suas equivalentes em todo o país, não podem se limitar a notas de repúdio. É necessário ingressar na Justiça com urgência, alegando a ausência de base legal para essa restrição e exigindo uma liminar que restabeleça o direito dos profissionais de utilizarem sua própria imagem durante as transmissões.
A medida é desproporcional. É arbitrária. E é juridicamente frágil.
Se não for contestada agora, abre um precedente perigoso. Hoje é a imagem do narrador. Amanhã pode ser a presença no estádio. Depois, a própria transmissão em áudio. O controle avança passo a passo, sempre com o mesmo argumento: proteger o produto. Mas o futebol não é propriedade de uma entidade. O futebol é patrimônio cultural do país. E a imprensa tem o direito, e o dever, de cobri-lo.
O rádio resistiu à televisão. A televisão resistiu à internet. E agora tentam impedir que a internet complete seu ciclo natural.
Não é uma questão tecnológica. É uma questão de liberdade.
Quando uma entidade tenta escolher quem pode aparecer, quem pode transmitir e quem pode existir, o problema já deixou de ser comercial. Passou a ser institucional.
E isso precisa ser enfrentado.