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Refil (da meada), a epistemologia da saudade em Diego Grando

Parêntese #322

Refil (da meada), a epistemologia da saudade em Diego Grando
Foto: Redes sociais de Diego Grando / Reprodução

Prends l’éloquence et tords-lui son cou!

Paul Verlaine

Acredito que falar de síntese ou de alusão, em poesia, não seja suficiente para uma caracterização autoral, pois, a rigor, uma das qualidades do próprio fazer poético é evadir a literalidade. Ainda assim, ao tratar de Refil (da meada) [antologia pessoal e alguma novidade], de Diego Grando, cabe dar lugar a este traço, quem sabe não como aspecto linguístico, mas como recurso performático do sujeito poético.

A minha agradável impressão ao acompanhar a formação dessa imagem interlocutória é a de que, aqui, este mecanismo de representação que costuma operar na poesia não está formulado com base na tradição substitutiva – metafórica, alegórica, metonímica, etc. –, ele aparece como um interdito, como a representação falha, um dito atravessado ou um corte do intuíto de recriar que faz o pensamento tresandar no desenlace, revelando o instante em que surge a consciência da imprecisão da língua, da palavra que falta. A estrutura mais superficial do texto, inclusive, também joga luz na impossibilidade de se comunicar, em flerte com o cúmulo: nem mesmo a máxima função expressiva, a poesia, pode nomear o que escapa, um fulgor que acabou de se perder, parece dizer o poeta. 

O “refil”, esse objeto tão contemporâneo e em si mesmo representativo – agora sim, à maneira metafórica – do modelo de mundo para o que se derivou no contexto urbano, substitui, em um exercício melancólico, o “fio” da meada, pois o condutor da lógica do que é dito, da ideia central que se quer alcançar, na reposição iterativa perde o sentido. São as frases-feitas observadas e recusadas pelo prisma poético.

Essa impossibilidade costuma ser usada em artifícios do pessimismo. Aqui não. “Há algo, sim, que atravessa todos os poemas escolhidos, algo que, óbvia e felizmente, não sei nomear” diz Grando no prefácio e, se pudermos tomar o “felizmente” como chave de leitura, esse interdito talvez possa ser um estímulo à exploração de emoções inominadas.

O primeiro poema, “Fuligem”, por exemplo, relaciona uma série de faltas: “faltou falar daquele primo”, “faltou listar as tardes todas”, “faltou regurgitar”, “faltou fazer a busca”. O que não se pode dizer aparece como um conflito desiderativo: sei que não sou capaz de dizer o todo, e no entanto persisto. O sujeito se resigna a falar das ausências, a optar pelo registro do fato de algo não ter sido dito, e não pelo dizê-lo, para se aproximar da completude, ou da enunciação fantasmagórica do sentimento. 

Tematicamente, os poemas perambulam por distintos cenários em que a palavra se aproxima, às vezes mais, às vezes menos, da comunicação da experiência da realidade externa. Nos poemas sobre as cidades – como “Rua do Templo”, “Palavra Paris” ou “Portanto Porto Alegre” –, em que surge inevitavelmente a figura do flâneur, misturando-se às massas e perseguindo pistas urbanas como um detetive, o discurso compõe uma tessitura bastante nítida do panorama urbano. 

Por outro lado, temos poemas como “Matéria e memória”, que propõe uma analogia do funcionamento da memória como um cosmos em que buracos de minhoca abrem caminhos instantâneos entre elementos heterogêneos do passado; ou como “Disperato incantabile”, em que partes de língua se reconfiguram com um material novo de um mundo anormal que surge abruptamente. A língua, na pandemia, o período referido que se deduz do poema, não é capaz de pormenorizar a nova experiência nem com todos os recursos metonímicos e demais figuras, que aqui parecem mais de acrobacia poética do que de linguagem.

Vejamos este segundo exemplo. “Lorem ipsum”, espectro entre personagem e língua, carrega em seu nome o sentido atual de texto vazio, língua de preenchimento, língua sem sentido, ou privada de sentido pela incapacidade de leitura dos usuários desse recurso funcional do design – “lorem ipsum”, par romântico do “refil”. Lorem ipsum, então – num “novo normal”, um contexto fora da norma linguística e pragmática – “fecha a porta” e se depara com o lar inundado de peças desmontadas e remontadas do paradigma do real destruído pelo assalto de um estado de exceção: