O horror tem reivindicado magistralmente o seu espaço na sétima arte. São tantos títulos produzidos anualmente, e com uma bilheteria tão volumosa, que até o público mais indiferente ao gênero tem se habituado à sua presença nos cinemas. Quando um filme de horror estrelado por uma musa dos anos 90 vence o Oscar, isso não acontece apenas por conta das qualidades da película. Antes, o sucesso de A Substância sinaliza claramente que diferentes audiências, de diferentes idades, estão sendo gradualmente seduzidas pela estética da narrativa grotesca.
Apesar disso, pouco compreendemos o que de fato está acontecendo com o cinema de horror.
Desde 2017, com a publicação de How post-horror movies are taking over cinema, artigo de Steve Rose para o The Guardian, críticos, teóricos e aficionados vêm se digladiando em torno do conceito de pós-horror, em tentativas pouco frutíferas de definir como A Bruxa, Corra! e tantos outros filmes dialogam com os mecanismos tradicionais do gênero.
Há quem veja nessas obras o ápice do horror contemporâneo: uma espécie de revolução modernista que abandona a esfera material da monstruosidade para explorar temores mais sutis e psicológicos. Outros acusam o novo ciclo de intelectualismo vazio, alegando que muitas produções se sustentam em alusões constantes a clássicos do passado, ou em artifícios visuais desprovidos de real conteúdo.
Como toda disputa, o debate está repleto de pontos legítimos, incoerências e excessos. É evidente que intertextualidade não substitui originalidade. No entanto, como sugeri em outro artigo, não podemos ignorar que no presente estágio da vida pós-moderna o resgate cultural se tornou essencial ao fazer artístico. Não haveria Barroco sem Renascimento. Como sempre, a história da arte exclama por dialéticas, retomadas e transformações.
Por outro lado, embora seja fascinante notar mais nitidamente o gótico assumindo uma aparência menos gráfica, como em Sombras da Vida, acreditar que isso constitui novidade revela uma visão estereotipada e ingênua. Seja no cinema ou nas demais formas de expressão, o gótico sempre foi capaz de tocar multidões e oferecer contribuições genuínas à arte.
Basta lembrar do belíssimo Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Telles, ou das narrativas absurdistas do gaúcho Amílcar Bettega em Deixe o quarto como está. Em ambos os casos, temos contos de horror que, já há bastante tempo, se organizam ao redor de sutilezas e nuances psicológicas.
Seja como for, a urgência por veredictos tem ofuscado nossa capacidade de compreender as novidades, boas ou ruins, do horror. Em vez de diagnosticar o fenômeno cultural emergente, a reação média tem sido a emissão irrefletida de juízos. Laudos.
Em face de tamanha pressa para canonizar ou crucificar a nova onda de filmes, o próprio Steve Rose se viu na obrigação de escrever, cinco anos depois, um novo artigo intitulado I called it ‘post-horror’ – and now I’ve created a monster, tentando esclarecer que com o termo pós-horror seu objetivo jamais foi avaliativo, mas especulativo. Importava ao crítico tatear no escuro: compreender, mesmo que tentativamente, o que havia de novo no gênero.
Em certo sentido, o tiro saiu pela culatra. E como seria diferente? Às vezes esquecemos que a polarização há muito se libertou do terreno da política para se tornar uma forma de vida abrangente. Contudo, o impulso de Rose foi válido. De alguma maneira, ele deu voz a uma postura crítica há tempos idealizada por Virgínia Woolf a respeito do resenhista.
No célebre ensaio Resenhando, a autora ataca abertamente a resenha, mostrando como ela se tornou sem sentido ao longo do tempo. Pressionado pelas demandas do capital, o resenhista teria sido forçado a produzir, a ritmo industrial, inúmeros textos acerca de inúmeras obras, sacrificando qualidade informativa.
Ainda assim, a dama do modernismo inglês sonhava com um mundo no qual o resenhista retomasse o seu lugar de prestígio. Para ela, a resenha possuía um potencial muito maior do que o de “recomendar uma compra”, uma vez que poderia articular um precioso campo de diálogo entre sociedade, seus interesses, aflições e necessidades, e as mentes criadoras, empenhadas na inovação formal, mas também na comunicação com o mundo concreto.
Para desempenhar tal função, porém, é indispensável conhecer e se envolver. Evitando a tradicional postura do crítico, longínqua e observadora, o resenhista woolfiano deve se entender enquanto peça integrante do mundo da arte. Uma pessoa que fala “de dentro”, que participa e dá movimento às criações, e não uma figura reativa, que fala “de fora”, com amargura judicial.
Se, portanto, o que nos interessa é a compreensão, o engajamento e, também, a avaliação das tendências culturais, é hora de começar a fazer as perguntas certas. Qual é, afinal, a relação entre o horror convencional e o pós-horror?
O primeiro passo natural é tentar definir o gênero principal com algum detalhe. Podemos pensar em simbologias, construção de personagens e estruturas narrativas típicas dos clássicos, para então checar como, e se, essas coisas aparecem no pós-horror. A manobra de Rose em seu primeiro artigo foi essa, e não resta dúvida de que ela é muito promissora.
O único problema desse estilo de abordagem é o risco de cair em um formalismo míope. Não se define um gênero observando apenas suas características formais. É preciso entender o efeito que ele desperta na audiência. Quais emoções estão em jogo? Ansiedade? Pavor? E os pensamentos? As reações fisiológicas? Tudo isso precisa entrar no cálculo.
A meu ver, na arte de horror, nenhum efeito é mais decisivo do que a sobrecarga semântica.
A maioria dos grandes clássicos oferece uma constelação tão grande de analogias, metáforas e significados ocultos, que às vezes o espectador se vê positivamente atordoado diante de tantas sutilezas a serem decodificadas. Pense em Drácula, de Bram Stoker, em O Iluminado, de Kubrick, ou na exuberância da arquitetura gótica da Catedral de Milão.
O que em grande medida compõe o prazer por essas obras é a constante sensação de ser invadido por uma torrente de informações de difícil apreensão. Como explorado brilhantemente por Jack Halberstam em Parasites and Perverts: An Introduction to Gothic Monstrosity, uma característica preciosa do horror é o fato de ele funcionar como uma “máquina de subjetividades”, ou seja, uma fonte de infinitos significados cruzados.
Pessoalmente, poucas obras de horror proporcionaram tal prazer como Cidade dos Sonhos, do saudoso David Lynch.
Anos atrás, após assistir à obra-prima pela primeira vez, eu me senti catatônico. O que povoava minha mente, ao longo das três horas seguintes, foi um profundo senso de desorientação, algo que beirava à dissociação da minha própria identidade, que de tempos em tempos era canalizada verbalmente na pergunta: o que aconteceu aqui?
Sinceramente, acompanho com entusiasmo o mais recente episódio da história do horror. É muito claro o esforço de diretores e diretoras em construir, pouco a pouco, obras belíssimas, de fôlego. O que às vezes me escapa, entretanto, é a experiência avassaladora. Esse overload cognitivo e emocional, tão constitutivo do gênero.
Quantas perguntas o pós-horror é capaz de incitar? Eis a questão para guiar o desbravamento do novo gótico. Afinal, quando o horror deixa de estarrecer, algo essencial se perde.