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Projeto Gema – Dez anos: Ato II

Parêntese #315

Por Lucas Luz
Projeto Gema – Dez anos: Ato II
Foto: Reprodução / Gema

Nunca tive acesso à avaliação e aos comentários de cada um dos especialistas que integravam a comissão de seleção do Natura Musical. Também não sei se era possível. Sei quem foram os avaliadores, algo amplamente divulgado junto à divulgação do edital: o crítico musical Zuza Homem de Mello, o DJ e pesquisador Zé Pedro, a cantora Titane, o jornalista Rafael Rocha, o produtor e radialista Luciano Mattos e o pesquisador e jornalista Edvaldo Souza. Quase nenhum gaúcho. Acho que foi por isso que o Gema foi selecionado, exatamente pelo olhar de fora, de quem conseguiu entender a importância em conhecer uma outra perspectiva da cultura gaúcha, além do colonialismo e do eurocentrismo, pela curiosidade em saber mais sobre o que é produzido por aqui além das estruturas e das instituições.

Quando o Gema foi pensando e enviado para o Natura Musical, em 2015, era apenas o segundo ano de realização do edital regional, com foco na produção local. A partir do financiamento do Pró-Cultura RS Lei de Incentivo à Cultura (LIC/RS), projetos de agentes culturais de nosso estado foram selecionados para que fossem realizados. Outros quatro projetos, além do Gema, puderam acessar estes recursos, sendo eles: álbuns solo de Guri Assis Brasil (Ressaca) e Tonho Crocco (Das Galáxias); Projeto Ccoma com o álbum Máquina Latinoamericana de Ritmo e o DVD Sons do Sul, do Maestro Tasso Bangel e Camerata Pampeana. Não fosse esse projeto próprio, Maestro Tasso provavelmente seria um dos nomes a ser registrado na primeira temporada do Gema. Uma rápida pesquisa na internet e sua importância para a música gaúcha será entendida.

O que muitos produtores proponentes de projetos para editais como o Natura Musical não se dão conta é que ambos os envios (para o edital e para a sua respectiva lei de incentivo) possuem regras próprias e processos singulares, ao mesmo tempo em que a coerência entre os envios precisa ser regra. Uma pena, pois ao longo dos anos, projetos anunciados pela Natura como contemplados acabaram não sendo realizados, pois não conseguiram aprovação na lei de incentivo própria de sua região.

Mas nós, do Gema, nunca corremos esse risco. Trabalhar com leis de incentivo era minha realidade de anos, conhecer a lei, as normativas e os manuais era obrigação. Provavelmente por isso, e pela solidez do argumento, a tramitação do projeto não teve diligência alguma, também não havendo nenhum corte no orçamento proposto.

Na época, o processo de avaliação de projetos enviados para a LIC se encerrava com a avaliação do Conselho Estadual de Cultura (CEC). Enquanto a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) avaliava as questões técnicas, de planejamento e orçamentárias, o CEC ficava responsável pela avaliação do mérito da proposta. Essa etapa é a que dava medo e ansiedade, pois o projeto poderia ser relatado por algum conselheiro ligado ao tradicionalismo gaúcho, que provavelmente questionaria a sua essência e razão de ser.

Por sorte,  o Conselheiro Relator responsável por avaliar o Projeto Gema foi alguém com muita intimidade com a subjetividade, o poeta Élvio Pereira Vargas. De sua parte, “entusiasmo”:

Estas pesquisas irão escavar em sítios até então adormecidos... que guardam traços dos sons e suas influências até aqui veladas por descuido ou falta de interesse. É justo que todo este trabalho investigativo demanda em tempo e paciência. Mais nobre ainda, que o seu resultado seja documentado em imagens formatadas por curtas metragens... o que torna-os mais compactos e com rápida assimilação da parte de quem os assiste. A globalização quebrou, esfacelou os territórios e hoje as culturas e civilizações navegam num rio e desembocam no grande oceano da universalidade. Antes... pensávamos para existir. Hoje... navegamos para concluir…